segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016



- ENTREVISTA COM AUTORES - 

POR TEREZA RECHE


Max Wagner Targa


A primeira entrevista dessa coluna, será com o escritor Max Wagner. O escritor de 40 anos, nasceu em Ribeirão Preto/SP, passou parte da infância e adolescência em fazendas no interior de Goiás. É casado e pai de três filhos. É escritor, historiador e blogueiro. Suas grandes paixões são: História, Literatura e Cinema. Há vinte anos pesquisa sobre as duas guerras mundiais. A Última Poesia é o seu primeiro livro, um romance histórico sobre a Primeira Guerra Mundial, publicado pela Chiado Editora, que será distribuído no Brasil e Portugal. É a primeira vez que um romance sobre a Grande Guerra é publicado por um brasileiro.

                                         
                                        Entrevista

TEREZA RECHE
Como e quando o sr(a) iniciou sua carreira, e o que o levou a isso?

MAX WAGNER
Comecei escrevendo poesias em 1988, aos 12 anos de idade. O que me levou à escrita foi o dom, eu nasci com isso, foi um presente de Deus. Entretanto, algo fez despertar esse talento. Até os meus dezoito anos eu fui uma criança muito tímida e solitária, vivia apenas para os estudos. Durante anos fui um dos melhores alunos do colégio, mas por causa do meu isolamento e dedicação aos estudos, alguns rapazes da escola me fizeram sofrer Bullying. Então comecei a refugiar-me nos poemas, criando um mundo só meu.

TEREZA RECHE
Cite suas obras e onde encontrá-las por gentileza.

MAX WAGNER
Eu escrevi uma saga sobre as duas guerras mundiais que foi dividida em 10 volumes. Do Orgulho Nasce a Guerra é o primeiro livro e foi publicado pela Chiado Editora. O romance pode ser encontrado em formato impresso no site da livraria Chiado de Portugal, está sendo distribuído em algumas livrarias em terras lusitanas: Fnac, Bertrand Livreiros, Wook, El Corte Inglês e Note.
Em breve chegará ao Brasil nas livrarias: Saraiva, Cultura, Fnac, Livraria da Travessa, Livraria Galileu, Easy Books, Só Livros e também pode ser adquirido comigo e autografado, pelo e-mail maxwagner.aultimapoesia@gmail.com. O formato digital foi disponibilizado na Amazon, Saraiva, Kobo, Cultura, Apple, Google Books e Revolução do Ebook.

TEREZA RECHE
Você acha que a figura do “leitor” continua em segundo plano nas reflexões literárias? 

MAX WAGNER
Jamais, o escritor não existe sem o leitor, acredito que é uma troca, ambos aprendem juntos, eu aprendi mais com meus leitores do que comigo mesmo. Não existe mais aquele conceito do professor ou do escritor apenas transmitindo conhecimento, deve ser recíproco. Acima de tudo o escritor deve saber o que significa humildade.


TEREZA RECHE
A Literatura há alguns anos, vem tomando novo corpo, a tecnologia propiciou isso. Publicações virtuais, facilidade em se auto publicar, dentre outras vias. Ao seu ver, como escritor da atualidade, esse cenário é de fato benéfico à Literatura, ou precisamos rever nossos conceitos?

MAX WAGNER
Muito benéfico, os livros virtuais surgiram como uma plataforma a mais de divulgação. Não acredito que o livro impresso será extinto, alguns preferem sentir o papel, outros não se importam em ler através de aparelhos portáteis. Eu particularmente leio nos dois formatos, minha biblioteca possui 10% de livros impressos e 90% de livros virtuais, por causa do baixo custo.

Quanto à avalanche de livros impressos hoje, em parte por causa da auto publicação. Vejo um ponto positivo e outro negativo. Primeiro, a oportunidade de auto se publicar é maravilhosa, eu comecei assim até ser descoberto por uma editora, sem contar que o número de publicações incentiva as pessoas a lerem mais. Em contrapartida os leitores devem ser seletivos, está cheio de obras mal escritas por aí, os erros gramaticais são grandes.

Hoje todos querem ser escritores. A pessoa precisa ter dom para escrever, e com o tempo vai estudando e aperfeiçoando sua escrita. O número de obras publicadas gerou uma enorme concorrência no mundo literário. Antigamente quando alguém resolvia se tornar escritor era bem recebido. Hoje você tem que ser muito bom para conquistar leitores, o esforço é maior, o que também não deixa de ser um benefício para o escritor. Mas Que a coisa está mais concorrida, ah isso está. 

TEREZA RECHE
Qual o papel do escritor, em relação a disseminação e consequente transformação mental, intelectual e filosófica dos leitores como sociedade? 

MAX WAGNER
É enorme, toda manifestação artística influencia e transforma a sua época. A grande obra “Germinal“ de Émile Zola revolucionou o seu tempo iniciando o Movimento Naturalista. Karl Marx é outro exemplo com o “Manifesto Comunista“ atingiu o mundo inteiro com as lutas de classes.

TEREZA RECHE
Qual a sua leitura de ficção brasileira hoje? É possível traçar vertentes e características?

MAX WAGNER
Romance histórico, o maior escritor brasileiro hoje é a Mary Del Priore, há pouco tempo ela publicou um romance histórico “Beije-me onde o sol não alcança”. Eu também gosto dos romances históricos do Augusto Cury. 

Recentemente aconteceu algo inusitado, por acaso eu li a obra “Ditadura de Corações“ da Revolução de 1932, foi admiração instantânea. Eu sempre desejei que publicassem um romance sobre o tema. No passado até pensei em escrever sobre a história. Acabei tornando-me amigo da autora (Tereza Reche), tenho lido tudo que ela escreve, eu ainda tive o prazer de ser entrevistado por ela neste artigo. O que ela transborda através da escrita é maravilhoso. Pelas palavras você conhece a alma das pessoas, e a alma da Tereza é linda. Conhecer o talento dela foi uma grande descoberta.


TEREZA RECHE
Primeiramente devo agradecer imensamente seu gentil e honroso comentário. Me sinto lisonjeada, ainda mais sendo esse um comentário advindo de um grande profissional com você! 

Escrita ou Vendas? Partindo do seu ponto de vista, qual desses substantivos femininos melhor se encaixaria no cenário literário atual? E por que?

MAX WAGNER
Com certeza escrita, eu escrevo por paixão, não por dinheiro e fama. Entretanto, anseio por sucesso, e para mim sucesso é sinônimo de reconhecimento dos meus leitores. Mas mesmo que eu não tiver sucesso na minha carreira literária, eu continuarei escrevendo, escrever é uma necessidade, é o ar que eu respiro. A razão e a realidade são muito duras para você viver sem sonhos, escrever é sonhar...

TEREZA RECHE
Qual escritor admira? E qual escrita aguça sua curiosidade literária?

MAX WAGNER
O meu grande mestre literário foi Victor Hugo, que escreveu “Os Miseráveis“ para mim o maior romance já escrito. Gosto também do Hemingway, que mistura poesia com jornalismo, por isso seus livros fizeram tanto sucesso, a coesão e a coerência de seus romances são maravilhosos.

A escrita que aguça minha curiosidade é o romance histórico, ele me permite viajar por outras épocas como se estivesse numa máquina do tempo. O romance histórico procura trazer o que a humanidade viveu. Os seus grandes expoentes hoje são; Bernard Cornwell, Max Gallo, Jeff Shaara e Ken Follett.

TEREZA RECHE
Como você avaliaria a literatura que se encontra no ranking dos melhores e mais vendidos?

MAX WAGNER
Péssima, sei que muitos leitores não irão concordar comigo, mas eu devo ser sincero, os últimos livros mais vendidos que acompanhei foi Grey e Um Heróis e Dois Mundos. Não estou desmerecendo as obras, não são tão ruins, mas colocá-las como as mais vendidas é demais. Um Herói e Dois Mundos até comprei para o meu filho, a história de um jogador de Minecraft que vai parar no mundo virtual dos vídeos games. Primeiro ele só passou a ideia para o papel, foi um ghost-writer que escreveu, onde está a criatividade? Cadê o talento literário? Literatura é arte.

Grey conta a trajetória de um homem que irá usar sua secretária como se fosse um mero objeto dos seus caprichos e desejos, eu sei que uma pitada de sensualidade é bom, mas deve existir um pouco de paixão ou romance. O pior é que muitas brasileiras amaram o livro. Ou eu estou vivendo em outra época ou não sei mais o que dizer. Um casal deve se entregar a sensualidade, mas mulher merece ser tratada com amor e paixão e não como lixo. Infelizmente o romantismo caiu em desuso, ainda bem que temos um Nicholas Sparks, para nos mostrar que o amor verdadeiro ainda é possível.


TEREZA RECHE
Existe obrigatoriamente que se seguir critérios para a criação literária? Justifique-se. 

MAX WAGNER
Em primeiro lugar a pessoa precisa ter talento para escrever, em segundo lugar humildade em ouvir escritores experientes, claro descartando conselhos pessimistas, retira o que é bom e útil desses conselhos. Mas só talento não é o suficiente, todo escritor deve aperfeiçoar-se, estudar o máximo que puder, unindo o útil ao agradável.

Alguns critérios são importantes, evitar o queísmo ( excessos de que no texto, isso empobrece qualquer leitura). Ler muito para enriquecer o seu texto evitando palavras repetitivas, estudar bastante gramática, escrever com frequência para exercitar. Uma frase literária deve conter no máximo três linhas, e cada parágrafo deve ter no máximo dez linhas, formando três frases num único parágrafo.

Contudo escrever é uma coisa muito pessoal, cada escritor vai desenvolver suas técnicas de escrita, talvez o que funcione com um não vai funcionar com outro. Uma coisa inadmissível é a falta de conhecimento de gramática.

TEREZA RECHE
Que problemática você destacaria na prática da difusão cultural no país? Como poderíamos resolver, senão amenizar tal situação?

MAX WAGNER
Falta de interesse. Embora defenda a ideia contrária, o governo brasileiro não quer cidadãos cultos, pessoas intelectuais não são fáceis de manobrar, elas pensam por si próprias, não são influenciadas, elas possuem ideais invencíveis. O que eu tenho acompanhado pelo país, principalmente por causa da crise, o primeiro lugar que eles cortam é na cultura; museus, bibliotecas fechando por toda parte.

A grande desculpa é que precisam investir na alimentação que é o principal, só que pessoas sem cultura e educação tendem a ter os piores salários, gerando miséria e diferenças sociais. Embora o governo defenda a democracia ele não quer ninguém pensando diferente deles. Como difusores da cultura, devemos continuar fazendo a nossa parte, compartilhando sentimentos através da arte. Se uma única pessoa for alcançada já terá valido a pena, já pensou se cada artista conseguisse conquistar apenas uma pessoa através da cultura, já terá sido suficiente. 

TEREZA RECHE
Como profissional literata, ao criar um novo livro, você exerce a escrita racional ou permite que a inspiração flua de maneira livre?

MAX WAGNER
Na verdade é um casamento. Sem inspiração eu jamais conseguiria escrever, é através dela que os sentimentos são colocados para fora, é o coração de qualquer livro, é isso que o leitor deseja. Entretanto um coração não funciona sem a mente, principalmente no romance histórico que busca a verossimilhança, sem técnica não funciona. 


TEREZA RECHE
O que você, na pele de leitor, jamais leria?

MAX WAGNER
Gosto é uma coisa que não se discute, o que para mim não serve, para outro é o máximo, nenhuma obra deve ser desmerecida. Eu particularmente não leio obras que fazem apologia ao racismo, distinção social, qualquer tipo de discriminação, a única exceção foi “Mein Kampf “ de Adolf Hitler. Eu fui obrigado a ler para entrar na mente do ditador e preparar os meus romances sobre as grandes guerras mundiais.

TEREZA RECHE
Escritor incondicionalmente o sendo por amor. Existe?

MAX WAGNER
Se não for por amor, por paixão não tem graça. Dinheiro é necessário, mas viver de literatura no Brasil é quase impossível. Se algum dia eu ganhar dinheiro com as minhas obras vai ser agradável, mas se eu não ganhar continuarei sendo escritor do mesmo jeito. Se Àqueles que um dia escreveram e desistiram, tivessem insistido, o mundo seria bem mais rico culturalmente.

TEREZA RECHE
Por que na sua opinião, certos gêneros, por mais interessantes que pareçam ser, não vendem no mercado atual literário?

MAX WAGNER
Essa é uma pergunta bem complicada. Eu escrevo romances históricos, não é um seguimento muito procurado no Brasil, com exceção do escritor britânico Bernard Cornwell que é um sucesso de vendas. Essa questão de gêneros que vendem ou não é muito complexa, eu acho que cada tempo vive o seu apogeu. No passado tivemos os grandes movimentos (Trovadorismo, Arcadismo, Barroco, Lirismo, Romantismo, Simbolismo, Realismo, Parnasianismo, Naturalismo e Modernismo) que foram bem aceitos em suas respectivas épocas.

Hoje Acredita-se que não exista um movimento que venda mais, eu discordo. Os livros sobre assuntos fantásticos são os mais vendidos, há alguns anos vimos uma explosão de vendas do Paulo Coelho e da Anne Rice que optaram por esse estilo, depois a J.K. Rowling, o Tolkien e tantos outros que fazem sucesso até hoje. O que não é bem aceito hoje poderá ser daqui há 20 ou 30 anos, é muito relativo, nenhum gênero de ser desmerecido.



TEREZA RECHE
Cultura e Intelectualidade caminham de mãos dadas, entretanto não são homogêneas... Afinal, a sociedade está mais intelectualizada ou apenas mais “antenada”?

MAX WAGNER
É uma questão bem complexa. Com o advento da internet o mundo virou outro. A sociedade está mais intelectualizada? Com certeza, a internet produziu muito mais conhecimento e um fácil acesso as informações, entretanto o intelecto atingiu apenas uma parcela da sociedade. Sabe por que isso aconteceu, por que a maioria das pessoas ainda não conseguiu separar aquilo que é relevante daquilo que não é.

Hoje o conhecimento deve ser filtrado, nem tudo que está na internet presta ou é verdadeiro. Quem busca conhecimento deve tomar muito cuidado com isso, por que em vez de se formar uma sociedade intelectualizada pode acabar se formando uma massa de pessoas com conhecimento de baixíssima qualidade. Eu acho que a sociedade está mais antenada do que intelectualizada, isso pode ser comprovado nos bates papos das redes sociais, os textos são muito mal escritos. Eu sei que um papo na net é uma linguagem coloquial, mas nem por isso devemos negligenciar totalmente a língua portuguesa.

TEREZA RECHE
Em que está trabalhando atualmente (livros)?

MAX WAGNER
Estou trabalhando em Silêncio das Armas, o segundo volume da saga “A Última Poesia“ e também em um livro de História, BrasilFront – Os Brasileiros na Primeira Guerra Mundial, para homenagear o centenário da entrada do Brasil na Grande Guerra.

TEREZA RECHE
De suas obras, qual sente maior apreço e qual sua sinopse resumida?

MAX WAGNER
Bom, eu escrevi uma saga sobre as duas guerras mundiais que foi dividida em 10 volumes. O primeiro “Do Orgulho Nasce a Guerra “ saiu em 2016, pela Chiado Editora, mas ele não é o meu preferido, o que eu mais gosto é o volume 4 “O Poeta e a Bailarina“ que será publicado até 2020. É amor demais em um único livro, nunca conheci um casal que se amasse tanto. 

Richard e Priscilla (o poeta e a bailarina) são dois irmãos que são separados quando eram crianças, mas depois de muitos anos acabam se encontrando e se apaixonam loucamente. Suas vidas se transformam num enorme tormento por que não podem viver o seu amor. Enquanto isso o mundo mergulha na maior guerra que já existiu.


TEREZA RECHE
Deixe sua mensagem aos leitores e colegas de profissão. 

MAX WAGNER
Aos leitores: continuem lendo bastante, principalmente obras que vão lhes trazer algum ensinamento; seja moral, intelectual ou sentimental. A leitura te leva para outros espaços, vivendo aventuras que lhe darão forças para enfrentar a realidade. E é claro leiam os meus livros... (Risos)... E aos colegas eu digo; nunca desistam, eu comecei a escrever há vinte oito anos, só Deus pode avaliar as dificuldades e humilhações que eu passei para que continuasse escrevendo. Tenham fé, mesmo que ninguém mais acredite no seu trabalho. Só hoje o meu trabalho está começando a ser reconhecido, já pensou se eu tivesse desistido lá atrás, e acima de tudo escrevam por amor, por paixão. Às vezes escrever e publicar parece um sonho impossível, uma espécie de utopia, mas não se entreguem. Continuem regando os sonhos, que com o tempo eles se tornarão realidade. O que faz as coisas acontecerem é acreditar, e fé não é o que olhos veem, é a certeza das coisas que se buscam...

Foi um prazer ter sua participação no Blog Por Tereza Reche.



terça-feira, 9 de fevereiro de 2016




DESCULPAR versus PERDOAR



Apesar do uso concomitante entre ambos verbos, as palavras desculpar e perdoar pouco têm em comum. Viciada que sou em Etimologia, pesquisei o significado nato de cada um desses dois verbos para discorrer neste artigo. 

Segundo a etimologia da palavra, PERDÃO vem do Latim PERDONARE, que significa: 

Per (totalidade-completude)
Donare (doação-entrega)

Já a palavra DESCULPAR, vem do Latim EXCUSARE, que significa:

Des/Ex (retirar-tirar fora)
Culpa/Cusare (culpa-acusação-causa-ação legal)

Logo, pode-se afirmar ser muito mais complexo o Perdão que a Desculpa, haja vista que o primeiro refere-se a empatia, já o segundo, fica portanto dependente do anterior. Afinal, se não conseguirmos primeiramente ver de forma empática o outro em sua suposta culpa, não há como, de antemão desculpá-lo. 
Pedir "desculpa" fica claro agora se tratar do "culpado" a clamar pela retirada da culpa que de fato assumia possuir. Ou seja, cabe ao outro, que agora é portador de juízo, doar ou não esse veredito. Retirar a culpa de alguém, desculpar de fato, é perdoar primeiro, doar e entregar ao culpado a sua absolvição, para que este, seja definitivamente extinto da culpa que possuía. 
Porém, é íntegra essa ação e obvia, que se uma vez desculpamos, o perdoado já não é portador da culpa, ou seja, está livre de culpa, esta não mais faz parte de si. É interessante que se observarmos essa afirmativa, aquele que uma vez Perdoa e Desculpa, vier a acusar novamente, torna-se-á agora este culpado de calúnia! Afinal, o perdoado não mais é culpado de nada perante remanescente acusação. 
Se "desculpamos", tiramos a culpa, libertamos o outro, e se faz necessário que ao decidir assumir tal ação, seja esta efetuada com a maturidade e compreensão de tamanho significado que esta recai sobre quem é vítima, tanto quanto quem foi portador do erro.

ESQUECER É NECESSÁRIO?



Primeiramente é de grande valia que compreenda-se de forma definida o significado do esquecimento versus memória. Isso, como também profissional da saúde, penso que seja mais enfático vislumbrar ao ponto de vista neurobiológico e não somente etimológico como fiz acima com os termos Perdão versus Desculpa.  Muitas das vezes o que impede, não o esquecimento, mas o amenizar das cicatrizes causadas por determinada ação, fica por conta da contusão registrada, conhecida como Mágoa. A palavra, que tem origem no latim macula, representa um sentimento de desgosto, pesar, sensação de amargura, tristeza, ressentimento. Desgosto = deixar de gostar, amargura = tornar-se do doce para o amargo e ressentimento = sentir inúmeras vezes , o fato novamente. 

Segundo um artigo, publicado por Mauro Maldonato e Alberto Olivero, na Scientific American Brasil, " uma época de predomínio cultural do paradigma medico- biológico, a memória (mneme) é identificada como um mecanismo cerebral puro, um arquivo das informações do sistema nervoso central; por seu lado, a reminiscência (anamnesis) é igualada a alguma coisa mais complexa e sutil do que o simples registro dos eventos. A reminiscência, de fato, implica uma reflexão sobre o passado, uma evocação das lembranças prazerosas ou dolorosas, sepultadas ou censuradas, que formam a essência de nossa individualidade. Mas, como é evidente, a disponibilidade do arquivo não coincide necessariamente com sua consulta e, portanto, a mera existência de uma lembrança, boa ou deficitária que seja, não se identifica com o princípio de identidade e de unicidade que decorre da individualidade de nossas recordações, conforme considera Oliverio. Nos últimos anos, os neurocientistas descreveram meticulosamente as bases moleculares, os fenômenos sinápticos e as alterações dos circuitos nervosos da memória, tentando preencher – por métodos não invasivos e multiparamétricos das imagens cerebrais – as lacunas explicativas da pesquisa psicológica. O conhecimento detalhado dessas dimensões poderia parecer pouco relevante aos que veem a mente como um conjunto de vivências diferentes e de experiências privadas e indizíveis. Em diferentes situações ligadas a danos e alterações da função nervosa, no entanto, a interpretação neurobiológica é fundamental para a compreensão do que acontece em nossa mente, como são reestruturadas as lembranças, como se dá o esquecimento."



Quando os autores da pesquisa refletem sobre o esquecimento, eles apontam questões sinápticas e acima de tudo provam, neurobiologicamente, que esquecer trata-se de algo puramente biofísico. Etimologicamente esquecer significa traduzir a ideia de que a memória da ofensa foi suprimida da consciência. Entretanto, ao perdoar, o indivíduo não deixa de se lembrar da afronta, e nem mesmo seria fisiologicamente falando natural, embora seja possível relembrar a situação de um modo diferente e menos perturbador. Ainda, segundo as pesquisas neurocientíficas, Até aqui, segundo Maldonato, M. et al; "consideramos a memória sem examinar a influência das emoções em suas esferas psicológicas. Os processos emotivos, segundo influenciam e modulam profundamente a biologia da memória. Na verdade, elas provocam inúmeras modificações vegetativas somáticas, cuja tarefa não é apenas informar o cérebro de que o corpo está emocionado – conferindo precisos matizes a determinadas experiências – mas também consolidar as experiências. Pensemos, em relação a isso, no papel exercido pelas endorfinas (peptídeos de ação analgésica similar à morfina que o cérebro libera em resposta a estímulos de dor ou emotivos) ao alterar a função dos mediadores nervosos que modificam a atividade das sinapses nas redes dos neurônios que registram as experiências. 
As emoções intervêm tanto diretamente nos mecanismos da memória, agindo na bioquímica cerebral, quanto indiretamente, por mensagens que o corpo emocionado envia ao cérebro. Trata-se de evidência já consolidada de que nos animais submetidos a experiências ricas de componentes emocionais a memorização é potencializada, já que os nervos (as fibras do nervo vago) indicam ao cérebro a liberação, em âmbito periférico, de substâncias típicas dos estados emocionais, como a adrenalina, secretada pelas glândulas suprarrenais. Nesse sentido, a biologia da memória não diz respeito apenas àqueles fenômenos neurobiológicos que asseguram a codificação de curto ou longo prazo das experiências, mas também à modulação exercida pelas estruturas nervosas e moléculas vinculadas à emoção.


As relações entre emoção e fatores cognitivos mostram o quanto são complexos os sistemas neurobiológicos responsáveis pelas diferentes dimensões da memória. Há quase meio século, o neurocirurgião americano William Scoville e a neurocientista inglesa Brenda Milner descreveram o caso clínico de um paciente, que mais tarde ficou famoso com suas iniciais, HM, que desde o nascimento padecia de uma grave forma de epilepsia que tornava sua vida bastante penosa. O procedimento neurocirúrgico para remover o tecido nervoso que causava as convulsões teve sucesso. A capacidade de percepção de eventos, raciocínio, fala e de recordar os eventos mais recentes foi conservada, assim como a memória semântica, apenas parcialmente alterada. 
Na íntegra, ao contrário, estava a capacidade de revocar tanto os eventos anteriores à cirurgia, quanto os seguintes a esse procedimento. Tratava-se de uma amnésia episódica tanto retrógrada (passado) quanto anterógrada (experiências seguintes). Em decorrência dos estudos sobre HM e sobre as relações entre hipocampo, lóbulo temporal e memória, as pesquisas passaram a examinar as estruturas nervosas que, se prejudicadas, provocam amnésia. Esses estudos demonstraram que a região temporal está vinculada ao sistema límbico (amígdala e hipocampo) e essa região com o diencéfalo (tálamo) através do fórnix: região temporal, sistema límbico e tálamo formam uma espécie de circuito da memória de que, obviamente, faz parte todo o córtex cerebral, em conexão com o temporal. Todas essas estruturas nervosas estão envolvidas na chamada memória explícita, que implica um reconhecimento consciente das experiências de vida. De fato, sensações e experiências, para serem transformadas em memórias explícitas, devem atravessar uma espécie de funil, a região temporal, e, daí, passando pelo hipocampo e pela amígdala (em que são conotadas por características espaciais e emotivas entre outras) alcançar o diencéfalo (tálamo) onde as experiências são reunidas e registradas sob forma de memórias estáveis nos circuitos cerebrais. Esse circuito córtex temporal-hipocampo-diencéfalo permite conectar as diferentes experiências da vida diária (sensações, imagens mentais, emoções, avaliações e juízos de realidade) para transformá-las em memória episódica, em eventos de nossa história individual. Trata-se de estruturas que desempenham papel também na memória semântica, como quando aprendemos nomes novos, registramos estavelmente números de telefones e aprendemos novos vocábulos. Por isso, conforme a amplitude da lesão nervosa, os pacientes amnésicos têm dificuldade não apenas para formar novas lembranças ou para acessar recordações existentes, mas também para apreender novas experiências."


A visão acima citada, tem tão somente o foco neurobiológico enfatizado, porém, se trouxermos esses fatores intrínsecos  e correlacioná-los ao tema em questão do "Perdoar x Desculpar x Esquecer", segundo 
Enright e North, da perspectiva dessa definição, as emoções positivas neutralizariam algumas emoções negativas em um primeiro momento, o que resulta em um decréscimo das mesmas. Ao longo do tempo, havendo uma diminuição substancial das emoções negativas, emoções positivas poderiam ser então intensificadas. Isso leva a constatar que, Worthington também aborda o perdão como um processo que, para ele, tem início com uma decisão e evolui até uma mudança emocional significativa por parte daquele que sofreu a ofensa. Vale ressaltar, conforme afirma Worthington (2005), que sua visão de perdão decisional foi influenciada por DiBlasio (1998), estudioso que propôs a ideia de “perdão baseado em decisão”, definindo-o como uma mudança na “força de vontade” empreendida pela pessoa ofendida com o objetivo de fazer cessar comportamentos nocivos direcionados ao ofensor. Já do ponto de vista de outros autores que foram pesquisados; como Exline e Baumeister (2001), propõem que, quando uma pessoa age de maneira injusta em relação à outra, essa ação efetivamente cria algo como um débito interpessoal. Segundo eles, o perdão poderia então ser entendido como o cancelamento ou a suspensão desse débito pela pessoa que foi magoada, sendo que essa suspensão poderia dar-se através de canais múltiplos, incluindo aqueles que são cognitivos (por exemplo, decidindo não pensar sobre o acontecido ou relembrar os próprios débitos causados a outros), afetivos (interrompendo sentimentos de raiva e hostilidade em relação ao ofensor), comportamentais (decidindo não vingar-se pela injustiça sofrida) e mesmo espirituais. Contudo, em relação a essa definição de perdão, se pensarmos sobre o cuidado dos autores do campo em diferenciar perdão de formas sinônimas, ela parece conflitar com esse esforço, uma vez que “decidir não pensar sobre o acontecido” pode ser entendido como uma forma de negação. 


Diante de visões controvérsias, o perdão e o ato de desculpar, parece de forma racional e neurobiológica, nada necessariamente interdependente. Haja vista que o fato de decidir por "tirar a culpa" do suposto portador desta, seja indiferente de controlar ações neurofisiológicas ligadas à deterioração de memória, seja esta de curto ou longo prazo. Concluo, ao meu ponto de vista, que diferente do que alguns autores e/ou estudiosos acerca do "É necessário esquecer para perdoar", que esta afirmativa possa ser um equívoco, e que um evento definitivamente e cientificamente, independe do outro. 



Escritora Tereza Reche



Links para pesquisa

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932012000300008

http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/o_fascinio_da_memoria.html

http://www.impactro.com.br/diferenca-entre-desculpa-perdao.aspx




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016



AFINAL, O QUE SE PASSA NA MENTE DAQUELE QUE MENTE? 



- Por que? Por que? Por que?...


Não saciada busquei na ciência a resposta, ou ao menos, alguns argumentos que acalentem a indignação de simplesmente: por que?
Bom, o texto desta vez é um tanto extenso, porém apreciável. Foi coletado inúmeros artigos para que se fizesse mais tragável, compreender o que se passa na mente daquele que "mente"...
Lendo  Beckert (2005), qual propõe que mentiras, promessas não cumpridas e omissões podem ser compreendidas quando se investiga a relação entre o comportamento verbal – o que se diz – e o comportamento não-verbal – o que se faz.
Ainda segundo o estudo científico sobre a psicologia do maldito mentiroso, o comportamento verbal, habilidade altamente desenvolvida, que nos distingue de outras espécies animais, permite solução mais rápida para problemas comuns à espécie ou ao grupo e possibilita transmissão de práticas culturais. Por comportamento verbal, entendemos todo comportamento (ação) de uma pessoa que produz efeitos noutra pessoa antes de produzir efeitos no meio. Por exemplo, uma pessoa que sinta calor pode pedir a outra que ligue o aparelho de ar-condicionado, no lugar dela mesma ligar. Seu comportamento (verbal), ou seja, sua solicitação agiu sobre outra pessoa e esta pessoa modificou o meio em que ambas se encontravam...

  Pode-se mentir para ter acesso a alguma vantagem ou evitar um “mal maior”. Assim sendo, as pessoas têm maior probabilidade de mentir menos e dizer a verdade diante de contextos em que elas não se sintam julgadas, não sejam criticadas ou, posteriormente punidas.Você, por exemplo, após ter sido punido por dizer a verdade, você a diria  noutra ocasião?


Com isso, podemos entender que as pessoas mentem porque aprenderam a evitar punições ou obter vantagens a partir das mentiras, sejam estas de pessoas ou fatos. Mas o que mais pode contribuir para que as pessoas mintam? 
Segundo muitos estudos, para uma pessoa mentir é preciso que ela tenha as ferramentas e as condições para que a mentira seja elaborada e emitida... Ou seja, nem sempre a culpa se encontra de posse apenas do Pinóquio e, sim do interlocutor. Afinal, há mentiras que nem teriam resultados tão impactantes, se os receptores se dessem ao trabalho de analisá-las ou ainda, detectá-las mesmo que isso trouxesse sofrimento. 


Donjuanismo




Voltando-se para o sentimental, as mentiras tornam-se ainda mais polêmicas, pelo menos para quem sofre com elas... Também pesquisando soluções e respostas no mínimo, coerentes para um contexto menos interpessoal e mais científico, a fim de compreender e não julgar, chego ao estudo de caso de um patologia, relativamente insignificante, mas que pode trazer a longo prazo danos tanto a quem sofre dela, como a quem sofre por sua causa.  

Trata-se do distúrbio, muito comum hoje em dias de romances tecnológicos, conhecido na psicologia como: Donjuanismo, este distúrbio é um protótipo particular de comportamento humano, classificação esta, estribada particularmente em valores culturais e morais. 



Don Juan é um personagem literário tido como símbolo da libertinagem. O primeiro romance com referência ao personagem foi a obra El Burlador de Sevilla, de 1630, do dramaturgo espanhol Tirso de Molina. Posteriormente Don Jun aparece em José Zorrillacom a estória de Don Juan Tenorio. A figura de Don Juan foi também cultuada na música, em obras de Strauss e Mozart, este último com a ópera Don Giovanni, composta em 1787. Outro paradigma do eterno sedutor é a figura de Casanova, conhecida pela autobiografia do veneziano Giovanni Jacopo Casanova.






Mas a figura do eterno sedutor continua atrelada à Don Juan, que aparece ainda na obra de Molière, em Le Festin de Pierre, no poema satírico de Byron chamado simplesmente Don Juan, no drama de Bernard Shaw, chamado Man and Superman.


Segundo Jung, para quem qualquer forma de arte, assim como os mitos, são veículos para a expressão do inconsciente coletivo, Don Juan pode representar nossos arquétipos (Walter Boechat - veja mais sobre o filme).Trata-se de um padrão de personalidade caracterizado por uma pessoa narcisista, enamorada, inescrupulosa, amada e odiada e que faz tudo valer para a conquista de uma pessoa.

O donjuanismo representa um protótipo particular de comportamento humano, classificada particularmente pelos valores culturais e morais. Não existe essa denominação no CID.10 ou DSM.IV, mas isso não significa, absolutamente, que por isso pessoas assim deixam de existir.

Independente das interpretações psicanalíticas sobre o filme Dom Juan de Marco, interessa aqui apenas caracterizar um tipo de conduta atual; a inclinação que as pessoas têm para liberdade sexual explícita. A característica principal do que se pode chamar hoje de donjuanismo, seria uma forte compulsão para sedução, entretanto essa característica não é isolada nem única na personalidade da pessoa, também não é exclusiva do sexo masculino.

Descreve-se o donjuanismo como uma personalidade que necessita seduzir o tempo todo, que aparentemente se enamora da pessoa difícil mas, uma vez conquistada, a abandona por desinteresse. As pessoas com esse traço não conseguem ficar apegados a uma pessoa determinada, partindo logo em busca de novas conquistas. Elas são os anarquistas do amor (Sapetti), tornando válidos quaisquer meios para conquistar, não obstante, os sentimentos da outra pessoa não são levados em consideração. Aliás, Foucault enfatiza essa questão ao dizer que Don Juan arrebenta com as duas grandes regras da civilização ocidental, a lei da aliança e a lei do desejo fiel.

Em psiquiatria clínica, entretanto, o desprezo para com o sentimento alheio pode ser critério para caracterizar uma atitude sociopática ou anti-social. Para o don juan só interessa o hedonismo, o instante do prazer e o triunfo sobre sua conquista, principalmente quando a pessoa de seu interesse tem uma situação civil proibida (casada, freira, irmã ou filha de amigo, etc ou os correspondentes masculinos). Sobre essa característica o escritor Carlos Fuentes, alega ao seu Don Juan a frase: "Porque nenhuma mulher me interessa se não tiver um amante, marido, confessor ou Deus, ao qual pertença ...".

Normalmente essas pessoas ignoram a decência e a virtude moral mas seu papel social tenta mostrar o contrário; são eminentemente sedutores. O aspecto de desafio mobiliza o don juan, fazendo com que a conquista amorosa tenha ares de esporte e competição, muitas vezes convidando amigos para apostas sobre sua competência em conquistar essa ou aquela mulher. Não é raros que esses conquistadores tragam listas e relações das mulheres conquistadas, tal como um troféu de caça.

Por outro lado, segundo Kaplan, deve haver significativos sentimentos homossexuais latentes nesses indivíduos. Esse autor considera que, levando para a cama a mulher de outro, o don juan estaria inconscientemente se relacionando com o marido, motivo maior de seu prazer. Tanto que é maior o prazer quanto mais expressivo é o marido ou namorado traído.

O narcisismo (traço feminóide) dessas pessoas é uma das características mais marcantes, a ponto delas amarem muito mais a si mesmas que a qualquer outra pessoa conquistada. Outros autores acham o donjuanismo um excesso do complexo de Édipo, ou fixação na mãe, já que muitos deles não constituem família com nenhuma de suas conquistas e acabam vivendo para sempre como protetores da família materna.

Nos casos mais sérios a inclinação à sedução pode adquirir caráter de verdadeira compulsão, tal como acontece no jogo patológico. De certa forma, apesar dessa conquista compulsiva servir-lhe para melhorar sua sensação de segurança e auto-estima, uma vez possuído o que desejava, já não o deseja mais. Em alguns casos o don juan começa a se desestimular com a conquista quando percebe que a pessoa conquistada já está apaixonada por ele. Pode até nem haver necessidade do ato sexual a partir do momento em que ele percebe que a pessoa aceita e deseja o sexo com ele. Por outro lado, se a pessoa a ser conquistada é indiferente ou não cede à sedução, o don juan se torna mais obstinado ainda.

Não será totalmente lícito dizer, como dizem alguns, que o don juan se diverte com o sofrimento alheio. Na realidade parece mais que seja insensível ao sentimento alheio do que tenha prazer com ele. De fato, parece que eles não experimentam com o amor o mesmo tipo de sentimento que as demais pessoas. O amor neles é um sentimento fugaz, passageiro e que, continuadamente, tem o objeto-alvo renovado. Se algum déficit pode ser apurado na personalidade do don juan, este se dá no controle da vontade.
Apesar dessa compulsão à sedução, isso não significa que a pessoa portadora de donjuanismo seja, obrigatoriamente, mais viril ou mais ativo sexualmente. Esse quadro não deve ser confundido com a Atividade Sexual Compulsiva onde, aí sim há hipersexualidade.

Portanto, a contínua sedução do don juan nem sempre se dá às custas de um desempenho sexual excepcional mas sim, devido à habilidade em oferecer às pessoas a serem seduzidas, tudo aquilo que elas mais estão querendo. Nesse sentido, todos eles são sempre muito inconstantes, desempenham papeis sociais sempre teatrais e exclusivamente dirigidos à satisfação de suas conquistas, por isso fazem sempre o tipo "príncipe encantado", tão cultuado pelo público feminino. As pessoas sedutoras têm habilidade em perceber rapidamente os gostos e franquezas de suas vítimas e são igualmente rápidos em atender as mais diversas expectativas.

Há quem considere como uma das características fundamentais da personalidade do don juan uma acentuada imaturidade afetiva. O aspecto volúvel e responsável pela constante troca de relacionamento pode ser indício dessa imaturidade afetiva e indica, sobretudo, uma completa carência de responsabilidade ou medo de assumir os compromissos normais das pessoas maduras (casamento, família, filhos, etc.).

"Tentar... Eternamente tentar... Sempre uma nova presa..."

Se designa a atitude de se relacionar sexualmente (com penetração sexual ou não), fortuitamente, fugazmente e sem nenhum compromisso de continuidade. Este relacionamento é fortuito porque não implica, obrigatoriamente, em nenhuma combinação ou contrato prévio, é fugaz devido à provisoriedade da união. Não há compromisso de continuidade porque, ao menor sinal de interesse de um dos envolvidos no sentido de continuar, a relação se desfaz e é evitada (diz-se que fulano(a) não é legal porque pega no pé). Nessa nova modalidade de relacionamento não há envolvimento amoroso, não há cobrança de compromisso e os objetivos se concretizam e se esgotam no orgasmo ou na despedida, normalmente com satisfação bilateral.

As mulheres começaram a expandir significativamente sua sexualidade depois da disseminação do uso da pílula anticoncepcional, nas décadas de 60-70, e a inconsequência sexual que antes era monopólio dos homens, também passou a ser experimentada por elas. Descobriu-se que o prazer podia ser bilateral e, a partir daí, deixou-se de falar que fulano se aproveitou de fulana; ambos se aproveitavam.
A atitude de "Ficar com..." é diferente daquilo que se entende por donjuanismo porque não implica numa verdadeira conquista. "Ficar com..." é uma afinidade recíproca, e um não conquista o outro porque ambos estão, decididamente, com o mesmo objetivo em mente.

Se no donjuanismo a insensibilidade e menosprezo para com o sentimento alheio são a marca do diagnóstico, "ficar com..." implica, em essência e caracteristicamente, na ausência de sentimentos mais profundos de ambas as partes. Assim sendo, não havendo sentimentos profundos, não há o que menosprezar.
Dessa forma, decididamente, entre a população adepta do "ficar com..." não há espaço para o donjuan. Nesse meio ele não encontra sua presa, já que as pessoas não preenchem os requisitos de candidatas, pois são desimpedidas, livres e com vontade deficar com outras pessoas. A compulsão do Don Juan se desfaz ante a ausência do desafio.

Não há denominação satisfatória para descrever a mulher que preenche os requisitos do donjuanismo, mas elas existem indubitavelmente. São também pessoas movidas pela compulsão da conquista e sedução do outro, pela inclinação ao relacionamento impossível, seja com homens mais velhos ou muito mais novos, casados, padres, enamorados de outras mulheres, enfim, pessoas que oferecem alguma condição de desafio.

  No donjuanismo feminino, tanto quanto no masculino, não há necessidade invariável de concluir a conquista através do ato sexual. Basta a mulher perceber que o objeto da conquista está, digamos, aos seus pés, que a motivação para continuar o relacionamento se desvanece. Quanto maior o número de homens, ou mulheres demonstrando desejo de tê-la, menos importância dará aos sentimentos individuais de cada um de seus pretendentes. Costumeiramente são mulheres bem sucedidas, lindas e inteligentes, mas que não conseguem se estabilizar, passando suas vidas a maior parte do tempo sozinhas e desiludidas. 

Evidentemente o mito de Don Juan pode representar um ideal masculino e, em alguns segmentos culturais, também um ideal feminino. A conquista como reforço da auto-estima pode, durante alguns momentos da vida ou em certas circunstâncias afetivas, ser eficiente. Entretanto, sendo a personalidade mais bem estruturada, a atitude conquistadora acaba mais cedo ou mais tarde, dando-se por satisfeita diante do objetivo conquistado. Essa é a principal diferença entre a Sedução Compulsiva e as conquistas normais durante a vida de qualquer pessoa.

Outra característica que diferencia as conquistas circunstanciais, apesar de múltiplas, do sedutor compulsivo, é a ausência de consideração para com os sentimentos alheios que sempre está presente neste último. Nas conquistas múltiplas e circunstanciais a pessoa tem boa noção e crítica sobre os eventuais transtornos sentimentais causados nas pessoas conquistadas e, em seguida, abandonadas.

Psicopatologia

Seria o donjuanismo uma doença? Seria uma doença, merecedora de tratamento ? Considerando o critério estatístico, aquele que constata a normalidade ou não-normalidade tendo como base a ocorrência estatística do fenômeno, podemos dizer que o donjuanismo não é normal (maioria das pessoas não é assim). Na realidade, a expressiva maioria das pessoas não é despojada de consideração para com o sentimento dos outros, mais especificamente, podemos dizer que a maioria das pessoas se mobiliza com o sentimento das mulheres.

Em psiquiatria ou na medicina geral, ser não-normal não significa, obrigatoriamente, ser doente. Para ser objeto de atenção médica é necessário que essa não-normalidade (estatística) implique também em um aspecto de morbidez, ou seja, implica na necessidade de sofrimento da pessoa ou de terceiros. Então, o donjuanismo poderá ser objeto de atenção médica na medida em que produz sofrimento.


Dentre os quadros classificados no DSM.IV e na CID.10, alguns critérios encontrados noDonjuan podem também ser encontrados no Transtorno Dissocial da Personalidade, da CID.10, ou em seu correspondente no DSM.IV, Transtorno Anti-social da Personalidade.


Entre os critérios do DSM.IV para o Transtorno Anti-social da Personalidade temos os seguintes:

Critérios para 301.7 - Transtorno da Personalidade Anti-Social

A. Um padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros, que ocorre desde os 15 anos, como indicado por pelo menos três dos seguintes critérios:

(1) fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção.

(2) propensão para enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer.

(3) impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro.

(4) irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas.

(5) desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia.

(6) irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras.

(7) ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa.

B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade.

C. Existem evidências de Transtorno da Conduta com início antes dos 15 anos de idade.

Entre esses critérios do Transtorno Anti-social da Personalidade, o Donjuan puro e sem outra patologia poderia cumprir os itens 1, 2, 3 e 7. Não mais que isso e, talvez isso não seja suficiente para alocar essas pessoas nessa classificação. Normalmente elas trabalham, não costumam ser irritáveis e agressivas, não desrespeitam a segurança própria, etc.

Entretanto, sob o código 302.9 do DSM.IV há o chamado Transtorno Sexual Sem Outra Especificação. Diz lá, que esta categoria é incluída para a codificação de uma perturbação sexual que não satisfaça os critérios para qualquer transtorno sexual específico, nem seja uma Disfunção Sexual ou uma Parafilia. 
Cita como exemplos o seguinte:

1. Acentuados sentimentos de inadequação envolvendo o desempenho sexual ou outros traços relacionados a padrões auto-impostos de masculinidade ou feminilidade.

2. Sofrimento acerca de um padrão de relacionamentos sexuais repetidos, envolvendo uma sucessão de amantes sentidos pelo indivíduo como coisas a serem usadas.

3. Sofrimento persistente e acentuado quanto à orientação sexual.

Nosso Don Juan poderia ser incluído no item 2 desse diagnóstico mas, mesmo assim, fica meio vago e pouco preciso pois, em nosso caso, o sofrimento seria mais por conta das vítimas do Don Juan que dele próprio e isso não está claro na descrição do DSM.IV.
A impressão (falsa) que se tem sobre o don juan é que, assim como é bem sucedido nas conquistas amorosas, também deve sê-lo em relação aos demais aspectos de sua vida. Entretanto, apesar dessas pessoas dominarem muito bem a arte da conquista do sexo oposto, elas não costumam ter a mesma habilidade em outras áreas da atividade humana; ocupacional, empresarial, estudantil ou mesmo familiar. Geralmente estão em falhas por exemplo em situações fixas como assumir filhos, assumir casamentos, assumir um relacionamento. 

A trajetória de sua vida nem sempre resulta num final satisfatório. Normalmente as pessoas com esse perfil de personalidade acabam por não se fixarem com nenhuma companhia mais seriamente, não constituem família e acabam se aborrecendo quando constatam que não têm mais facilidade para conquistar mocinhas de 20 anos quando já estão na casa dos 60. Além disso, muitas vezes acabam ridicularizados por essas tentativas totalmente fora do contexto.

Além disso, eles podem atravessar períodos de grande angústia na maturidade quando se dão conta de que todos seus amigos estão casados têm família e eles já não podem desfrutar de tantas companhias femininas como outrora.

Tendo-se em mente a natureza constitucional do donjuanismo, ou seja, considerando ser este um defeito do caráter, o tratamento mais eficiente deve ser pleiteado para as intercorrências emocionais que acometem o paciente por conta da situação vivencial em que se encontra e não, diretamente dirigido à essa característica da personalidade.

Segundo a Psicóloga Rosana Augusto, em um artigo de sua autoria, por muitas vezes, tanto os homens quanto as mulheres, tendem a justificar sua solidão por não encontrar alguém ou quando encontram relatam não conseguem viver um “amor”. Nessa inquietude da conquista, certa instabilidade gera uma busca pelo grande objeto do desejo no processo de “conquistar” que se distancia do encontro com a pessoa a ser conquistada.




Neste jogo de sedução, ao se alcançar a conquista é presente a monotonia caracterizando as relações rápidas e volúveis sem a existência do vínculo afetivo com o sentir de um “vazio” depois de expectativas frustrantes.



Na Psicologia, Jung coloca os efeitos do complexo materno que podem gerar distúrbios psíquicos, como o Don Juanismo caracterizado pela imagem da mãe como mulher perfeita, que não possui defeito e que está sempre de prontidão para atender os desejos do homem. Neste sentido, a figura materna presente e registrada na psique do homem tende a interferir cada vez mais em suas relações e em suas paixões. Em seguida, a conquista passa ocupar um “lugar” aonde acontece esta comparação podendo ter como resultado o desaparecimento repentino da paixão que insere a ideia de uma relação vazia e desinteressante.

Diante desta experiência, a relação é interrompida por não conseguir firmar laços duradouros, devido a busca da perfeição em todas as mulheres que se aproximam, encontrando nas outras pessoas defeitos imaginários para justificar o término da relação. Tendo a ilusão constante e atormentadora, de que pode estar perdendo tempo demais com a atual sendo que possa haver outra ainda mais perfeita que esta, a ser conquistada. Por outro lado, quando houve uma relação saudável com a mãe, o fortalecimento inconsciente deste vínculo passa a ser duradouro refletindo na procura da imagem da mãe nas outras mulheres.

Concluindo... O fator que leva um indivíduo, seja do sexo masculino ou feminino a não assumir a veracidade de suas ações,  ou da ação de iludir o próximo, é sem dúvida alguma, um dano maior do que ele se dá conta, pois afeta, sobretudo a si mesmo, depois ao outro.

Escritora Tereza Reche





Links de Pesquisa

http://www.inpaonline.com.br/mentira-por-que-as-pessoas-mentem/

http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=172

http://www.elidioalmeida.com/2011/04/por-que-as-pessoas-mentem/

http://www.psicologoeterapia.com.br/psicologo-crescimento-pessoal-e-profissional/porque-as-pessoas-mentem/

http://www.psicologiamsn.com/2014/02/o-jogo-da-seducao-e-sindrome-de-don-juan.html