sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016






- ENTREVISTA COM AUTORES III - 

POR TEREZA RECHE

MICHELLE ZANIN

A terceira entrevista da Coluna "ENTREVISTA COM AUTORES" será com a escritora e Presidente da Academia Luminescência Brasileira de Araraquara - SP. Michelle Franzini Zanin é uma renomada escritora, detentora de importantes láureas e membro das mais importantes instituições culturais. E é com grande carisma que essa personalidade cedeu ao Blog Por Tereza Reche essa tão honrosa entrevista. 


ENTREVISTA


TEREZA RECHE
Cite suas obras e onde encontrá-las por gentileza


MICHELLE ZANIN
Minhas obras são: Vida, Metáforas e Asseverações (infantil). Elas podem ser adquiridas através do endereço www.alubraweb.com.br





TEREZA RECHE
Você acha que a figura do “leitor” continua em segundo plano nas reflexões literárias?

MICHELLE ZANIN
Não, vejo na conjuntura atual a figura do leitor em primeiro plano, o que se é publicado é pensado no leitor, no que ele gostaria de ler e o que almeja com essa leitura.

TEREZA RECHE
Escrita ou Vendas? Partindo do seu ponto de vista, qual desses substantivos femininos melhor se encaixaria no cenário literário atual? E por que?

MICHELLE ZANIN
Vendas. Infelizmente o cenário literário atual do Brasil é dominado por editoras comerciais, logo se prioriza as vendas, deixando a qualidade literária e o que é distinto, curioso, fora do mercado. Se observar, verá que há um padrão estabelecido nas obras publicadas por editoras comerciais.

TEREZA RECHE
Qual escritor admira? E qual escrita aguça sua curiosidade literária?

MICHELLE ZANIN
Admiro vários autores, é difícil destacar apenas um. Sou eclética quando o assunto é leitura, como escritora, procuro conhecer diversos gêneros literários e seus distintos autores, isso fortalece minha escrita e me torna mais crítica em relação a meu trabalho.


TEREZA RECHE
Como profissional literata, ao criar um novo livro, você exerce a escrita racional ou permite que a inspiração flua de maneira livre?

MICHELLE ZANIN
Primeiro sou tomada pela inspiração, em sequência, tento amadurecer a ideia, planejar como ficará no papel. Creio que em meu processo criativo há uma sincronia entre a inspiração e o racional.

TEREZA RECHE
Quais seus planos para 2016 em relação a sua vida literária?

MICHELLE ZANIN
Meus planos para 2016 são acabar os projetos com os quais estou envolvida e continuar a escrever, fazer aquilo que me torna feliz, que faz de mim um ser humano melhor.

TEREZA RECHE
Em que está trabalhando atualmente (livros)?

MICHELLE ZANIN
No momento estou trabalhando em um livro referente a um município próximo da cidade onde resido e na minha saga de ficção científica, paralelo a isso, estou sempre escrevendo poemas e contos.

TEREZA RECHE
De suas obras, qual sente maior apreço e qual sua sinopse resumida?

MICHELLE ZANIN
Orgulho-me de todas minhas obras, mas se fosse para escolher uma seria Vida. Vida foi meu primeiro trabalho publicado, onde tudo começou, então tenho um carinho especial por esse livro. Trata-se de uma antologia poética com temática variada, onde abordo temas que considero essenciais para a formação espiritual e social do indivíduo.

TEREZA RECHE
Escritor incondicionalmente o sendo por amor. Existe?

MICHELLE ZANIN
Sim, sou a prova disso. Amo o que faço, quando escrevo me sinto realizada, por um breve período me desligo das adversidades diárias. Sinto-me realizada.



















Cara Comendadora Michelle Zanin, foi um prazer ter sua participação no Blog Por Tereza Reche. 

Escritora Tereza Reche



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016


QUANDO A FANTASIA GERA DOR.




Em tempos de tecnologia, pouco espaço na agenda e facilidades sexuais, eis que surgem os amores virtuais. É importante que haja um justo julgamento acerca desse assunto, visto que neste, não há culpados ou inocentes, a não ser o limiar entre o paraíso e o inferno que os separa. Não se trata de nada mais que fantasia predestinada ao fracasso, com raros casos de êxito já vividos. 
Mas afinal, se estatisticamente é muito mais fácil haver insucesso, por que ainda assim caímos nessa armadilha? 
Carência? Ingenuidade? Oportunismo? Aventura inconsequente? 
Parece ser um miscigenado de todos...





O modernismo nos trouxe essa nova maneira de se comunicar, de se relacionar e até mesmo de amar! Segundo um artigo científico "Can love be virtual? Affective relationships through the Internet" da autora Alessandra dos Santos Menezes Dela Coleta, "Tabus como contatos de fundo sexual vão se dissolvendo. Invisíveis, as pessoas se permitem conversar, seduzir, trocar experiências em áreas antes proibidas. É a descoberta de uma nova forma de sexo seguro, em que adolescentes ensaiam os primeiros contatos com o sexo oposto e adultos realizam fantasias sem culpa.





Morais da Rosa (2001), em uma pesquisa acerca de relacionamentos virtuais, pôde constatar que na sala #sexo do programa IRC, dentre os 25 entrevistados, 21 eram do sexo masculino (84%) e 4 do sexo feminino (16%), 100% eram solteiros, 92% afirmaram obter prazer através do sexo virtual, 88% dos entrevistados já tiveram ou gostariam de ter contato real com alguma pessoa com quem já praticaram sexo virtual, 44% praticantes de sexo virtual entrevistados já assumiram ou assumem o papel de sexo oposto nas relações sexuais virtuais, 52% dos entrevistados tinham entre 19 e 26 anos, 56% declararam que mudaram a opção sexual (heterossexual para homossexual, ou vice-versa) a partir do momento em que passaram a acessar as salas de sexo virtual, apesar de declararem não ter esta opção sexual na vida real.



A ilusão de proximidade, de conhecimento e intimidade a despeito das - às vezes, enormes - distâncias geográficas é um dos aspectos negativos da virtualidade. Outro contraponto, e um dos mais sérios, é a fuga da " realidade real" , quando essa não é, ou não está das melhores, o que, muito provavelmente, é parte do que está por trás da tão alardeada adicção na Rede, principalmente nos " chats" . O uso da Internet já foi comparado ao uso da cocaína por Griffiths (citado por Nicolaci-da-Costa, 1998), sendo esta comparação feita em virtude da semelhança dos sintomas apresentados pelos viciados em ambas, como palpitações, tremores, sombras diante dos olhos, confusão mental, como também sintomas fracamente psicóticos com delírios de ciúmes, alucinações e idéias de perseguição.



Já para Castro (1999), os relacionamentos através da Internet produzem uma inversão das relações sociais vistas pela sociologia clássica. Enquanto esta última afirmava que a relação social necessitava da materialidade, o ciberespaço, ao contrário, não condiciona a relação social ao contato face a face, mas a um sentimento coletivo, à lógica do estar-junto, mesmo num espaço desterritorializado. Há um redimensionamento do processo da relação interpessoal e social.
Num primeiro momento, os contatos sociais e interpessoais dão-se em nível virtual, cabendo a cada um dos envolvidos determinar sua continuidade. Num segundo momento, o relacionamento virtual pode, ou não, materializar-se na realidade, concretizando as relações iniciadas no ciberespaço. Os conflitos, as mentiras, os problemas e as decepções quando da relação materializada são de caráter subjetivo, dependendo do usuário e da maneira como ele lida e convive no ciberespaço. O usuário é responsável por suas ações e atitudes na esfera do virtual e posteriormente na realidade.



Para Nicolaci-da-Costa (1998), as possibilidades de comunicação mediadas pelo computador e da troca de informações e prestações de serviços, bem como o número de usuários, que cada vez mais usufruem deste tipo de comunicação, crescem em ritmo acelerado, o que torna importantes as pesquisas com o objetivo de descrever os novos processos de interação social e as possíveis conseqüências, principalmente das salas de " bate-papo eletrônico" .

De acordo com uma ampla pesquisa com duas mil pessoas (CNT/Sensus, 2007) de 195 municípios de 24 estados, o uso da Internet já faz parte do cotidiano de 9,4% da população brasileira, em casa ou no trabalho, significando algo em torno de 14 milhões de usuários. Na pesquisa, constatou-se que 3,2% utilizam o computador com Internet no trabalho e 6,2% em casa. Outros 1,8% dos entrevistados utilizam o computador, mas sem a Internet, no trabalho e 2,1% em casa.


Um grupo de pesquisa da New York University - NYU (McKenna, Green & Gleason, 2002) supunha que as pessoas que podem revelar melhor o seu verdadeiro " eu" para outros na Internet do que no contato face a face seriam mais propensos a formar relacionamentos íntimos on-line e tenderiam a trazer os relacionamentos virtuais para suas vidas reais. Para comprovar essa hipótese, desenvolveram dois estudos sobre o assunto. O primeiro estudo mostrou que aqueles que melhor expressam seu eu verdadeiro na Internet são provavelmente que outros formam relacionamentos íntimos on-line e movem essas amizades para uma base face a face. O segundo estudo revelou que a maioria desses relacionamentos íntimos de Internet ainda estava intacta dois anos depois.



Visando a explorar algumas destas questões, o presente estudo definiu como objetivos: analisar quais são os motivos percebidos pelos usuários da Internet para procurar o relacionamento virtual; identificar o perfil do usuário da sala de bate-papo; verificar o nível de adicção na Internet; analisar se o relacionamento virtual provocou alguma mudança de comportamento observada pelo usuário; verificar se os relacionamentos na Internet são percebidos como satisfatórios".


A autora cita os argumentos muito bem colocados do juíz de Direito Alexandre Rosa, autor do livro "Amante Virtual:  inconsequências..." Segundo o autor, estamos todos juntos e separados ao mesmo tempo: formamos o paradoxo virtual da convivência imediata e do isolamento eterno. A frieza dos contatos mantidos somente por aparelhos/próteses cibernéticas afasta, sonega, simula, o calor humano. Perde-se a referência de quem é o outro! A vertigem do simulacro é plena. Não se sabe o que é real ou virtual. Chega-se a ser o outro de ninguém: da máquina, desse avanço tecnológico performático desconectado de qualquer alteridade. De sorte que, se sentindo relativamente seguro, o indivíduo está coberto pelo véu-virtual e livre para fazer voar sua imaginação, seus sentimentos irrealizáveis no mundo fático, servindo como fuga da realidade, dando condições/ânimo (em muitos casos) para carregar o mundo real. Apimenta o dia-a-dia; dá o molho à realidade. Suborna o prazer com carícias queridas-e-não-queridas advindas de alguém que não sei (nem se deseja de fato) saber quem é e que preenche algo que não-sei-o-que-é (tampouco se deseja saber).







Essa é a situação dos navegantes do espaço virtual, tal qual o homem da vida, rompendo os interditos movido pelo desejo. Realizar suas vontades/desejos, redescobrir a sedução: sentir-se mulher; sentir-se homem. O desejo se mantêm na falta/necessidade do sujeito: no devir da sedução. Aquela sedução aniquilada no relacionamento rotinizado/estabilizado ressurge com todo o vigor no mundo virtual, com seu complexo jogo de signos. No que se refere ao relacionamento virtual em si, pode-se apontar quatro estágios/fases, sem que sejam absolutas. 



1a Fase: Chats de Facebook, Tinder, sites de relacionamentos.
Nesta primeira etapa existe apenas um sujeito: o eu. Esse eu começa a navegar na web sem maiores preocupações nem objetivos específicos. A motivação interna vai desde a curiosidade até ausência afetivo-sentimental, como as verificáveis no filme Mensagem para Você. Nestas ocasiões, quer em chats ou mesmo em sites de relacionamentos pessoais, acontece (via de regra) o primeiro contato motivado por qualquer razão ou pretexto; um nickname que agrada, um nome, um rosto bonito, amigos em comum, um filme, uma música, o acaso/destino: as motivações são inexplicáveis/aleatórias e subjetivas. Nos chats após o primeiro contato normalmente se passa para o “reservado” e a conversa flui naturalmente. Havendo uma certa interação e interesse recíproco pode-se passar para a segunda fase...



2a Fase: E-mail, WhatsApp dentre outros.

Após estabelecido o primeiro contato, passa-se a etapa um pouco mais pessoal, estabelecida ainda sobre a regra de não ser muito específico nas informações, no qual as pessoas trocam impressões pessoais sobre assuntos, se conhecem melhor, buscam saber mais de si e do outro. Como num namoro, o jogo de sedução, de impressionamento e surpresas está acontecendo com um detalhe muito importante: o eu pode desaparecer a qualquer momento. Em suma, nesta fase/etapa, busca-se conhecer – com as limitações próprias – o outro, demonstrando-se aquilo que se é ou se quer ser. É verdade, de outra face, que nem todos querem contatos físicos. Muitos querem apenas uma fuga da realidade, sem necessariamente pretender consumar algo físico-sexual.
É neste instante em que um dos dois irá decerto sofrer as consequências... O outro, todavia, permanece nesse estágio pelos mais variados motivos. Passa-se a ter o amor platônico perfeito eterno: o simulacro: a ilusão gostosa e cômoda, qual desta, não deseja tão cedo se abster.  



3a Fase: Contato pessoal.

A terceira etapa se constitui na apresentação real, por meio de encontros. Normalmente isso acontece depois de muita conversa e interação entre os parceiros virtuais. Avançando-se para o contato pessoal desnudando-se do véu-virtual, abrem-se as possibilidades de interação pessoal. Entretanto, pesquisas confirmam que na maioria das vezes, apenas um dos dois indivíduos envolvidos se encontram de fato dispostos a algo sério e duradouro. 



4a Fase: Passagem para o contato físico.

Muitos dos relacionamentos virtuais não chegam a este estágio, os que chegam possuem, segundo pesquisas estatísticas, baixo percentual de continuidade. Nesta etapa a distância do virtual e do real é superada e os amantes se entregam, finalmente ao seu prazer físico. 
Isso, entretanto, parece quebrar o vínculo idealizado de ambas partes, destruindo as expectativas e projeções estabelecidas um pelo outro.



Segundo Matthew Bambling, psicólogo da Universidade de Tecnologia de Queensland, desilusões amorosas virtuais são sim reais, mesmo sem que a 3ª e 4ª fase seja estabelecida, e tal insucesso pode ser evitado se as pessoas agilizarem encontros “reais” com aqueles que conhecem via internet, antes possível. Ele sugere, por exemplo, o convite para um café depois de alguns poucos e-mails ou conversa em chats trocados, para evitar que os internautas construam uma imagem fantasiosa da outra pessoa, um idealismo sem volta e muitas das vezes que gera dor e sofrimento desnecessários. 

Para Bambling, é fácil investir rapidamente em uma relação baseada no universo virtual, porque os interessados não têm uma ideia completa da pessoa com quem estão teclando. A paixão às vezes, é ainda mais ágil e intensa, pois se baseia exatamente naquilo que desejamos que de fato exista no outro. 
O especialista reconhece ser possível encontrar um parceiro na internet, mas alerta os interessados a ficarem atentos às armadilhas, desculpas, desvios e fugas nas entrelinhas, que mostram claro desinteresse pelo real. “Há definitivamente um sentimento de desinibição on-line. Assim, fica mais fácil enfatizar as qualidades e tentar esconder os defeitos”, disse. “Poucos dirão: sou um alcoólatra de meia idade que já se casou cinco vezes. Me escolha. Em vez disso, tentarão se mostrar como uma boa alternativa.” 
Depois de analisar esses relacionamentos, ele percebeu que as mulheres tendem a ser atraídas por comentários inteligentes. “Você nunca pode achar que as coisas realmente são da maneira que elas parecem ser na internet”, defendeu Bambling. O cérebro nos engana, nos trai, muitas vezes somos o maior vilão dessa tragédia anunciada. 

“O fato de alguém conseguir fazer um comentário esperto ou escrever um e-mail inteligente certamente não significa que essa pessoa pode ser o par perfeito”, continuou. Segundo ele, muitos homens/mulheres utilizam um conceito de “pescaria”, enviando mensagens on-line para diversos perfis, esperando que algum responda. É então que o indivíduo qual está fadado a armadilha, será o fisgado e posteriormente, grande probabilidade haverá de ser este, o traído por este cenário desde o início ilusório. 

Mas há casos, mesmo que raros, onde ambos possuem a fiel intenção de continuidade. Porém, não prevemos o futuro, nesse cenário emocionalmente instável, nos encontramos nadando à esmo. Crendo fielmente no que projetamos e "lemos", e a cada instante postergado para um eventual encontro, enfeitamos ainda mais a projeção, afastando-a de sua fiel realidade. Sim, o amor existe. Sim, ele acontece da maneira mais pura e íntegra de algum dos lados, pois dispensa aparências, sexo e toque. Porém, se apenas um lado estiver nesta vibração, o caos sentimental daquele que ama de fato, será certamente imensurável e comprovadamente mais destruidor que em situações reais. 



Escritora Tereza Reche





Links analisados para preparação deste Artigo:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722008000200010
https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/relacionamento-virtual
http://www.psiconlinews.com/2015/08/quando-o-relacionamento-virtual-se-torna-paixao.html


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016



- ENTREVISTA COM AUTORES - 

POR TEREZA RECHE


Max Wagner Targa


A primeira entrevista dessa coluna, será com o escritor Max Wagner. O escritor de 40 anos, nasceu em Ribeirão Preto/SP, passou parte da infância e adolescência em fazendas no interior de Goiás. É casado e pai de três filhos. É escritor, historiador e blogueiro. Suas grandes paixões são: História, Literatura e Cinema. Há vinte anos pesquisa sobre as duas guerras mundiais. A Última Poesia é o seu primeiro livro, um romance histórico sobre a Primeira Guerra Mundial, publicado pela Chiado Editora, que será distribuído no Brasil e Portugal. É a primeira vez que um romance sobre a Grande Guerra é publicado por um brasileiro.

                                         
                                        Entrevista

TEREZA RECHE
Como e quando o sr(a) iniciou sua carreira, e o que o levou a isso?

MAX WAGNER
Comecei escrevendo poesias em 1988, aos 12 anos de idade. O que me levou à escrita foi o dom, eu nasci com isso, foi um presente de Deus. Entretanto, algo fez despertar esse talento. Até os meus dezoito anos eu fui uma criança muito tímida e solitária, vivia apenas para os estudos. Durante anos fui um dos melhores alunos do colégio, mas por causa do meu isolamento e dedicação aos estudos, alguns rapazes da escola me fizeram sofrer Bullying. Então comecei a refugiar-me nos poemas, criando um mundo só meu.

TEREZA RECHE
Cite suas obras e onde encontrá-las por gentileza.

MAX WAGNER
Eu escrevi uma saga sobre as duas guerras mundiais que foi dividida em 10 volumes. Do Orgulho Nasce a Guerra é o primeiro livro e foi publicado pela Chiado Editora. O romance pode ser encontrado em formato impresso no site da livraria Chiado de Portugal, está sendo distribuído em algumas livrarias em terras lusitanas: Fnac, Bertrand Livreiros, Wook, El Corte Inglês e Note.
Em breve chegará ao Brasil nas livrarias: Saraiva, Cultura, Fnac, Livraria da Travessa, Livraria Galileu, Easy Books, Só Livros e também pode ser adquirido comigo e autografado, pelo e-mail maxwagner.aultimapoesia@gmail.com. O formato digital foi disponibilizado na Amazon, Saraiva, Kobo, Cultura, Apple, Google Books e Revolução do Ebook.

TEREZA RECHE
Você acha que a figura do “leitor” continua em segundo plano nas reflexões literárias? 

MAX WAGNER
Jamais, o escritor não existe sem o leitor, acredito que é uma troca, ambos aprendem juntos, eu aprendi mais com meus leitores do que comigo mesmo. Não existe mais aquele conceito do professor ou do escritor apenas transmitindo conhecimento, deve ser recíproco. Acima de tudo o escritor deve saber o que significa humildade.


TEREZA RECHE
A Literatura há alguns anos, vem tomando novo corpo, a tecnologia propiciou isso. Publicações virtuais, facilidade em se auto publicar, dentre outras vias. Ao seu ver, como escritor da atualidade, esse cenário é de fato benéfico à Literatura, ou precisamos rever nossos conceitos?

MAX WAGNER
Muito benéfico, os livros virtuais surgiram como uma plataforma a mais de divulgação. Não acredito que o livro impresso será extinto, alguns preferem sentir o papel, outros não se importam em ler através de aparelhos portáteis. Eu particularmente leio nos dois formatos, minha biblioteca possui 10% de livros impressos e 90% de livros virtuais, por causa do baixo custo.

Quanto à avalanche de livros impressos hoje, em parte por causa da auto publicação. Vejo um ponto positivo e outro negativo. Primeiro, a oportunidade de auto se publicar é maravilhosa, eu comecei assim até ser descoberto por uma editora, sem contar que o número de publicações incentiva as pessoas a lerem mais. Em contrapartida os leitores devem ser seletivos, está cheio de obras mal escritas por aí, os erros gramaticais são grandes.

Hoje todos querem ser escritores. A pessoa precisa ter dom para escrever, e com o tempo vai estudando e aperfeiçoando sua escrita. O número de obras publicadas gerou uma enorme concorrência no mundo literário. Antigamente quando alguém resolvia se tornar escritor era bem recebido. Hoje você tem que ser muito bom para conquistar leitores, o esforço é maior, o que também não deixa de ser um benefício para o escritor. Mas Que a coisa está mais concorrida, ah isso está. 

TEREZA RECHE
Qual o papel do escritor, em relação a disseminação e consequente transformação mental, intelectual e filosófica dos leitores como sociedade? 

MAX WAGNER
É enorme, toda manifestação artística influencia e transforma a sua época. A grande obra “Germinal“ de Émile Zola revolucionou o seu tempo iniciando o Movimento Naturalista. Karl Marx é outro exemplo com o “Manifesto Comunista“ atingiu o mundo inteiro com as lutas de classes.

TEREZA RECHE
Qual a sua leitura de ficção brasileira hoje? É possível traçar vertentes e características?

MAX WAGNER
Romance histórico, o maior escritor brasileiro hoje é a Mary Del Priore, há pouco tempo ela publicou um romance histórico “Beije-me onde o sol não alcança”. Eu também gosto dos romances históricos do Augusto Cury. 

Recentemente aconteceu algo inusitado, por acaso eu li a obra “Ditadura de Corações“ da Revolução de 1932, foi admiração instantânea. Eu sempre desejei que publicassem um romance sobre o tema. No passado até pensei em escrever sobre a história. Acabei tornando-me amigo da autora (Tereza Reche), tenho lido tudo que ela escreve, eu ainda tive o prazer de ser entrevistado por ela neste artigo. O que ela transborda através da escrita é maravilhoso. Pelas palavras você conhece a alma das pessoas, e a alma da Tereza é linda. Conhecer o talento dela foi uma grande descoberta.


TEREZA RECHE
Primeiramente devo agradecer imensamente seu gentil e honroso comentário. Me sinto lisonjeada, ainda mais sendo esse um comentário advindo de um grande profissional com você! 

Escrita ou Vendas? Partindo do seu ponto de vista, qual desses substantivos femininos melhor se encaixaria no cenário literário atual? E por que?

MAX WAGNER
Com certeza escrita, eu escrevo por paixão, não por dinheiro e fama. Entretanto, anseio por sucesso, e para mim sucesso é sinônimo de reconhecimento dos meus leitores. Mas mesmo que eu não tiver sucesso na minha carreira literária, eu continuarei escrevendo, escrever é uma necessidade, é o ar que eu respiro. A razão e a realidade são muito duras para você viver sem sonhos, escrever é sonhar...

TEREZA RECHE
Qual escritor admira? E qual escrita aguça sua curiosidade literária?

MAX WAGNER
O meu grande mestre literário foi Victor Hugo, que escreveu “Os Miseráveis“ para mim o maior romance já escrito. Gosto também do Hemingway, que mistura poesia com jornalismo, por isso seus livros fizeram tanto sucesso, a coesão e a coerência de seus romances são maravilhosos.

A escrita que aguça minha curiosidade é o romance histórico, ele me permite viajar por outras épocas como se estivesse numa máquina do tempo. O romance histórico procura trazer o que a humanidade viveu. Os seus grandes expoentes hoje são; Bernard Cornwell, Max Gallo, Jeff Shaara e Ken Follett.

TEREZA RECHE
Como você avaliaria a literatura que se encontra no ranking dos melhores e mais vendidos?

MAX WAGNER
Péssima, sei que muitos leitores não irão concordar comigo, mas eu devo ser sincero, os últimos livros mais vendidos que acompanhei foi Grey e Um Heróis e Dois Mundos. Não estou desmerecendo as obras, não são tão ruins, mas colocá-las como as mais vendidas é demais. Um Herói e Dois Mundos até comprei para o meu filho, a história de um jogador de Minecraft que vai parar no mundo virtual dos vídeos games. Primeiro ele só passou a ideia para o papel, foi um ghost-writer que escreveu, onde está a criatividade? Cadê o talento literário? Literatura é arte.

Grey conta a trajetória de um homem que irá usar sua secretária como se fosse um mero objeto dos seus caprichos e desejos, eu sei que uma pitada de sensualidade é bom, mas deve existir um pouco de paixão ou romance. O pior é que muitas brasileiras amaram o livro. Ou eu estou vivendo em outra época ou não sei mais o que dizer. Um casal deve se entregar a sensualidade, mas mulher merece ser tratada com amor e paixão e não como lixo. Infelizmente o romantismo caiu em desuso, ainda bem que temos um Nicholas Sparks, para nos mostrar que o amor verdadeiro ainda é possível.


TEREZA RECHE
Existe obrigatoriamente que se seguir critérios para a criação literária? Justifique-se. 

MAX WAGNER
Em primeiro lugar a pessoa precisa ter talento para escrever, em segundo lugar humildade em ouvir escritores experientes, claro descartando conselhos pessimistas, retira o que é bom e útil desses conselhos. Mas só talento não é o suficiente, todo escritor deve aperfeiçoar-se, estudar o máximo que puder, unindo o útil ao agradável.

Alguns critérios são importantes, evitar o queísmo ( excessos de que no texto, isso empobrece qualquer leitura). Ler muito para enriquecer o seu texto evitando palavras repetitivas, estudar bastante gramática, escrever com frequência para exercitar. Uma frase literária deve conter no máximo três linhas, e cada parágrafo deve ter no máximo dez linhas, formando três frases num único parágrafo.

Contudo escrever é uma coisa muito pessoal, cada escritor vai desenvolver suas técnicas de escrita, talvez o que funcione com um não vai funcionar com outro. Uma coisa inadmissível é a falta de conhecimento de gramática.

TEREZA RECHE
Que problemática você destacaria na prática da difusão cultural no país? Como poderíamos resolver, senão amenizar tal situação?

MAX WAGNER
Falta de interesse. Embora defenda a ideia contrária, o governo brasileiro não quer cidadãos cultos, pessoas intelectuais não são fáceis de manobrar, elas pensam por si próprias, não são influenciadas, elas possuem ideais invencíveis. O que eu tenho acompanhado pelo país, principalmente por causa da crise, o primeiro lugar que eles cortam é na cultura; museus, bibliotecas fechando por toda parte.

A grande desculpa é que precisam investir na alimentação que é o principal, só que pessoas sem cultura e educação tendem a ter os piores salários, gerando miséria e diferenças sociais. Embora o governo defenda a democracia ele não quer ninguém pensando diferente deles. Como difusores da cultura, devemos continuar fazendo a nossa parte, compartilhando sentimentos através da arte. Se uma única pessoa for alcançada já terá valido a pena, já pensou se cada artista conseguisse conquistar apenas uma pessoa através da cultura, já terá sido suficiente. 

TEREZA RECHE
Como profissional literata, ao criar um novo livro, você exerce a escrita racional ou permite que a inspiração flua de maneira livre?

MAX WAGNER
Na verdade é um casamento. Sem inspiração eu jamais conseguiria escrever, é através dela que os sentimentos são colocados para fora, é o coração de qualquer livro, é isso que o leitor deseja. Entretanto um coração não funciona sem a mente, principalmente no romance histórico que busca a verossimilhança, sem técnica não funciona. 


TEREZA RECHE
O que você, na pele de leitor, jamais leria?

MAX WAGNER
Gosto é uma coisa que não se discute, o que para mim não serve, para outro é o máximo, nenhuma obra deve ser desmerecida. Eu particularmente não leio obras que fazem apologia ao racismo, distinção social, qualquer tipo de discriminação, a única exceção foi “Mein Kampf “ de Adolf Hitler. Eu fui obrigado a ler para entrar na mente do ditador e preparar os meus romances sobre as grandes guerras mundiais.

TEREZA RECHE
Escritor incondicionalmente o sendo por amor. Existe?

MAX WAGNER
Se não for por amor, por paixão não tem graça. Dinheiro é necessário, mas viver de literatura no Brasil é quase impossível. Se algum dia eu ganhar dinheiro com as minhas obras vai ser agradável, mas se eu não ganhar continuarei sendo escritor do mesmo jeito. Se Àqueles que um dia escreveram e desistiram, tivessem insistido, o mundo seria bem mais rico culturalmente.

TEREZA RECHE
Por que na sua opinião, certos gêneros, por mais interessantes que pareçam ser, não vendem no mercado atual literário?

MAX WAGNER
Essa é uma pergunta bem complicada. Eu escrevo romances históricos, não é um seguimento muito procurado no Brasil, com exceção do escritor britânico Bernard Cornwell que é um sucesso de vendas. Essa questão de gêneros que vendem ou não é muito complexa, eu acho que cada tempo vive o seu apogeu. No passado tivemos os grandes movimentos (Trovadorismo, Arcadismo, Barroco, Lirismo, Romantismo, Simbolismo, Realismo, Parnasianismo, Naturalismo e Modernismo) que foram bem aceitos em suas respectivas épocas.

Hoje Acredita-se que não exista um movimento que venda mais, eu discordo. Os livros sobre assuntos fantásticos são os mais vendidos, há alguns anos vimos uma explosão de vendas do Paulo Coelho e da Anne Rice que optaram por esse estilo, depois a J.K. Rowling, o Tolkien e tantos outros que fazem sucesso até hoje. O que não é bem aceito hoje poderá ser daqui há 20 ou 30 anos, é muito relativo, nenhum gênero de ser desmerecido.



TEREZA RECHE
Cultura e Intelectualidade caminham de mãos dadas, entretanto não são homogêneas... Afinal, a sociedade está mais intelectualizada ou apenas mais “antenada”?

MAX WAGNER
É uma questão bem complexa. Com o advento da internet o mundo virou outro. A sociedade está mais intelectualizada? Com certeza, a internet produziu muito mais conhecimento e um fácil acesso as informações, entretanto o intelecto atingiu apenas uma parcela da sociedade. Sabe por que isso aconteceu, por que a maioria das pessoas ainda não conseguiu separar aquilo que é relevante daquilo que não é.

Hoje o conhecimento deve ser filtrado, nem tudo que está na internet presta ou é verdadeiro. Quem busca conhecimento deve tomar muito cuidado com isso, por que em vez de se formar uma sociedade intelectualizada pode acabar se formando uma massa de pessoas com conhecimento de baixíssima qualidade. Eu acho que a sociedade está mais antenada do que intelectualizada, isso pode ser comprovado nos bates papos das redes sociais, os textos são muito mal escritos. Eu sei que um papo na net é uma linguagem coloquial, mas nem por isso devemos negligenciar totalmente a língua portuguesa.

TEREZA RECHE
Em que está trabalhando atualmente (livros)?

MAX WAGNER
Estou trabalhando em Silêncio das Armas, o segundo volume da saga “A Última Poesia“ e também em um livro de História, BrasilFront – Os Brasileiros na Primeira Guerra Mundial, para homenagear o centenário da entrada do Brasil na Grande Guerra.

TEREZA RECHE
De suas obras, qual sente maior apreço e qual sua sinopse resumida?

MAX WAGNER
Bom, eu escrevi uma saga sobre as duas guerras mundiais que foi dividida em 10 volumes. O primeiro “Do Orgulho Nasce a Guerra “ saiu em 2016, pela Chiado Editora, mas ele não é o meu preferido, o que eu mais gosto é o volume 4 “O Poeta e a Bailarina“ que será publicado até 2020. É amor demais em um único livro, nunca conheci um casal que se amasse tanto. 

Richard e Priscilla (o poeta e a bailarina) são dois irmãos que são separados quando eram crianças, mas depois de muitos anos acabam se encontrando e se apaixonam loucamente. Suas vidas se transformam num enorme tormento por que não podem viver o seu amor. Enquanto isso o mundo mergulha na maior guerra que já existiu.


TEREZA RECHE
Deixe sua mensagem aos leitores e colegas de profissão. 

MAX WAGNER
Aos leitores: continuem lendo bastante, principalmente obras que vão lhes trazer algum ensinamento; seja moral, intelectual ou sentimental. A leitura te leva para outros espaços, vivendo aventuras que lhe darão forças para enfrentar a realidade. E é claro leiam os meus livros... (Risos)... E aos colegas eu digo; nunca desistam, eu comecei a escrever há vinte oito anos, só Deus pode avaliar as dificuldades e humilhações que eu passei para que continuasse escrevendo. Tenham fé, mesmo que ninguém mais acredite no seu trabalho. Só hoje o meu trabalho está começando a ser reconhecido, já pensou se eu tivesse desistido lá atrás, e acima de tudo escrevam por amor, por paixão. Às vezes escrever e publicar parece um sonho impossível, uma espécie de utopia, mas não se entreguem. Continuem regando os sonhos, que com o tempo eles se tornarão realidade. O que faz as coisas acontecerem é acreditar, e fé não é o que olhos veem, é a certeza das coisas que se buscam...

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016




DESCULPAR versus PERDOAR



Apesar do uso concomitante entre ambos verbos, as palavras desculpar e perdoar pouco têm em comum. Viciada que sou em Etimologia, pesquisei o significado nato de cada um desses dois verbos para discorrer neste artigo. 

Segundo a etimologia da palavra, PERDÃO vem do Latim PERDONARE, que significa: 

Per (totalidade-completude)
Donare (doação-entrega)

Já a palavra DESCULPAR, vem do Latim EXCUSARE, que significa:

Des/Ex (retirar-tirar fora)
Culpa/Cusare (culpa-acusação-causa-ação legal)

Logo, pode-se afirmar ser muito mais complexo o Perdão que a Desculpa, haja vista que o primeiro refere-se a empatia, já o segundo, fica portanto dependente do anterior. Afinal, se não conseguirmos primeiramente ver de forma empática o outro em sua suposta culpa, não há como, de antemão desculpá-lo. 
Pedir "desculpa" fica claro agora se tratar do "culpado" a clamar pela retirada da culpa que de fato assumia possuir. Ou seja, cabe ao outro, que agora é portador de juízo, doar ou não esse veredito. Retirar a culpa de alguém, desculpar de fato, é perdoar primeiro, doar e entregar ao culpado a sua absolvição, para que este, seja definitivamente extinto da culpa que possuía. 
Porém, é íntegra essa ação e obvia, que se uma vez desculpamos, o perdoado já não é portador da culpa, ou seja, está livre de culpa, esta não mais faz parte de si. É interessante que se observarmos essa afirmativa, aquele que uma vez Perdoa e Desculpa, vier a acusar novamente, torna-se-á agora este culpado de calúnia! Afinal, o perdoado não mais é culpado de nada perante remanescente acusação. 
Se "desculpamos", tiramos a culpa, libertamos o outro, e se faz necessário que ao decidir assumir tal ação, seja esta efetuada com a maturidade e compreensão de tamanho significado que esta recai sobre quem é vítima, tanto quanto quem foi portador do erro.

ESQUECER É NECESSÁRIO?



Primeiramente é de grande valia que compreenda-se de forma definida o significado do esquecimento versus memória. Isso, como também profissional da saúde, penso que seja mais enfático vislumbrar ao ponto de vista neurobiológico e não somente etimológico como fiz acima com os termos Perdão versus Desculpa.  Muitas das vezes o que impede, não o esquecimento, mas o amenizar das cicatrizes causadas por determinada ação, fica por conta da contusão registrada, conhecida como Mágoa. A palavra, que tem origem no latim macula, representa um sentimento de desgosto, pesar, sensação de amargura, tristeza, ressentimento. Desgosto = deixar de gostar, amargura = tornar-se do doce para o amargo e ressentimento = sentir inúmeras vezes , o fato novamente. 

Segundo um artigo, publicado por Mauro Maldonato e Alberto Olivero, na Scientific American Brasil, " uma época de predomínio cultural do paradigma medico- biológico, a memória (mneme) é identificada como um mecanismo cerebral puro, um arquivo das informações do sistema nervoso central; por seu lado, a reminiscência (anamnesis) é igualada a alguma coisa mais complexa e sutil do que o simples registro dos eventos. A reminiscência, de fato, implica uma reflexão sobre o passado, uma evocação das lembranças prazerosas ou dolorosas, sepultadas ou censuradas, que formam a essência de nossa individualidade. Mas, como é evidente, a disponibilidade do arquivo não coincide necessariamente com sua consulta e, portanto, a mera existência de uma lembrança, boa ou deficitária que seja, não se identifica com o princípio de identidade e de unicidade que decorre da individualidade de nossas recordações, conforme considera Oliverio. Nos últimos anos, os neurocientistas descreveram meticulosamente as bases moleculares, os fenômenos sinápticos e as alterações dos circuitos nervosos da memória, tentando preencher – por métodos não invasivos e multiparamétricos das imagens cerebrais – as lacunas explicativas da pesquisa psicológica. O conhecimento detalhado dessas dimensões poderia parecer pouco relevante aos que veem a mente como um conjunto de vivências diferentes e de experiências privadas e indizíveis. Em diferentes situações ligadas a danos e alterações da função nervosa, no entanto, a interpretação neurobiológica é fundamental para a compreensão do que acontece em nossa mente, como são reestruturadas as lembranças, como se dá o esquecimento."



Quando os autores da pesquisa refletem sobre o esquecimento, eles apontam questões sinápticas e acima de tudo provam, neurobiologicamente, que esquecer trata-se de algo puramente biofísico. Etimologicamente esquecer significa traduzir a ideia de que a memória da ofensa foi suprimida da consciência. Entretanto, ao perdoar, o indivíduo não deixa de se lembrar da afronta, e nem mesmo seria fisiologicamente falando natural, embora seja possível relembrar a situação de um modo diferente e menos perturbador. Ainda, segundo as pesquisas neurocientíficas, Até aqui, segundo Maldonato, M. et al; "consideramos a memória sem examinar a influência das emoções em suas esferas psicológicas. Os processos emotivos, segundo influenciam e modulam profundamente a biologia da memória. Na verdade, elas provocam inúmeras modificações vegetativas somáticas, cuja tarefa não é apenas informar o cérebro de que o corpo está emocionado – conferindo precisos matizes a determinadas experiências – mas também consolidar as experiências. Pensemos, em relação a isso, no papel exercido pelas endorfinas (peptídeos de ação analgésica similar à morfina que o cérebro libera em resposta a estímulos de dor ou emotivos) ao alterar a função dos mediadores nervosos que modificam a atividade das sinapses nas redes dos neurônios que registram as experiências. 
As emoções intervêm tanto diretamente nos mecanismos da memória, agindo na bioquímica cerebral, quanto indiretamente, por mensagens que o corpo emocionado envia ao cérebro. Trata-se de evidência já consolidada de que nos animais submetidos a experiências ricas de componentes emocionais a memorização é potencializada, já que os nervos (as fibras do nervo vago) indicam ao cérebro a liberação, em âmbito periférico, de substâncias típicas dos estados emocionais, como a adrenalina, secretada pelas glândulas suprarrenais. Nesse sentido, a biologia da memória não diz respeito apenas àqueles fenômenos neurobiológicos que asseguram a codificação de curto ou longo prazo das experiências, mas também à modulação exercida pelas estruturas nervosas e moléculas vinculadas à emoção.


As relações entre emoção e fatores cognitivos mostram o quanto são complexos os sistemas neurobiológicos responsáveis pelas diferentes dimensões da memória. Há quase meio século, o neurocirurgião americano William Scoville e a neurocientista inglesa Brenda Milner descreveram o caso clínico de um paciente, que mais tarde ficou famoso com suas iniciais, HM, que desde o nascimento padecia de uma grave forma de epilepsia que tornava sua vida bastante penosa. O procedimento neurocirúrgico para remover o tecido nervoso que causava as convulsões teve sucesso. A capacidade de percepção de eventos, raciocínio, fala e de recordar os eventos mais recentes foi conservada, assim como a memória semântica, apenas parcialmente alterada. 
Na íntegra, ao contrário, estava a capacidade de revocar tanto os eventos anteriores à cirurgia, quanto os seguintes a esse procedimento. Tratava-se de uma amnésia episódica tanto retrógrada (passado) quanto anterógrada (experiências seguintes). Em decorrência dos estudos sobre HM e sobre as relações entre hipocampo, lóbulo temporal e memória, as pesquisas passaram a examinar as estruturas nervosas que, se prejudicadas, provocam amnésia. Esses estudos demonstraram que a região temporal está vinculada ao sistema límbico (amígdala e hipocampo) e essa região com o diencéfalo (tálamo) através do fórnix: região temporal, sistema límbico e tálamo formam uma espécie de circuito da memória de que, obviamente, faz parte todo o córtex cerebral, em conexão com o temporal. Todas essas estruturas nervosas estão envolvidas na chamada memória explícita, que implica um reconhecimento consciente das experiências de vida. De fato, sensações e experiências, para serem transformadas em memórias explícitas, devem atravessar uma espécie de funil, a região temporal, e, daí, passando pelo hipocampo e pela amígdala (em que são conotadas por características espaciais e emotivas entre outras) alcançar o diencéfalo (tálamo) onde as experiências são reunidas e registradas sob forma de memórias estáveis nos circuitos cerebrais. Esse circuito córtex temporal-hipocampo-diencéfalo permite conectar as diferentes experiências da vida diária (sensações, imagens mentais, emoções, avaliações e juízos de realidade) para transformá-las em memória episódica, em eventos de nossa história individual. Trata-se de estruturas que desempenham papel também na memória semântica, como quando aprendemos nomes novos, registramos estavelmente números de telefones e aprendemos novos vocábulos. Por isso, conforme a amplitude da lesão nervosa, os pacientes amnésicos têm dificuldade não apenas para formar novas lembranças ou para acessar recordações existentes, mas também para apreender novas experiências."


A visão acima citada, tem tão somente o foco neurobiológico enfatizado, porém, se trouxermos esses fatores intrínsecos  e correlacioná-los ao tema em questão do "Perdoar x Desculpar x Esquecer", segundo 
Enright e North, da perspectiva dessa definição, as emoções positivas neutralizariam algumas emoções negativas em um primeiro momento, o que resulta em um decréscimo das mesmas. Ao longo do tempo, havendo uma diminuição substancial das emoções negativas, emoções positivas poderiam ser então intensificadas. Isso leva a constatar que, Worthington também aborda o perdão como um processo que, para ele, tem início com uma decisão e evolui até uma mudança emocional significativa por parte daquele que sofreu a ofensa. Vale ressaltar, conforme afirma Worthington (2005), que sua visão de perdão decisional foi influenciada por DiBlasio (1998), estudioso que propôs a ideia de “perdão baseado em decisão”, definindo-o como uma mudança na “força de vontade” empreendida pela pessoa ofendida com o objetivo de fazer cessar comportamentos nocivos direcionados ao ofensor. Já do ponto de vista de outros autores que foram pesquisados; como Exline e Baumeister (2001), propõem que, quando uma pessoa age de maneira injusta em relação à outra, essa ação efetivamente cria algo como um débito interpessoal. Segundo eles, o perdão poderia então ser entendido como o cancelamento ou a suspensão desse débito pela pessoa que foi magoada, sendo que essa suspensão poderia dar-se através de canais múltiplos, incluindo aqueles que são cognitivos (por exemplo, decidindo não pensar sobre o acontecido ou relembrar os próprios débitos causados a outros), afetivos (interrompendo sentimentos de raiva e hostilidade em relação ao ofensor), comportamentais (decidindo não vingar-se pela injustiça sofrida) e mesmo espirituais. Contudo, em relação a essa definição de perdão, se pensarmos sobre o cuidado dos autores do campo em diferenciar perdão de formas sinônimas, ela parece conflitar com esse esforço, uma vez que “decidir não pensar sobre o acontecido” pode ser entendido como uma forma de negação. 


Diante de visões controvérsias, o perdão e o ato de desculpar, parece de forma racional e neurobiológica, nada necessariamente interdependente. Haja vista que o fato de decidir por "tirar a culpa" do suposto portador desta, seja indiferente de controlar ações neurofisiológicas ligadas à deterioração de memória, seja esta de curto ou longo prazo. Concluo, ao meu ponto de vista, que diferente do que alguns autores e/ou estudiosos acerca do "É necessário esquecer para perdoar", que esta afirmativa possa ser um equívoco, e que um evento definitivamente e cientificamente, independe do outro. 



Escritora Tereza Reche



Links para pesquisa

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932012000300008

http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/o_fascinio_da_memoria.html

http://www.impactro.com.br/diferenca-entre-desculpa-perdao.aspx