sábado, 5 de março de 2016



QUE VOCÊ SEJA FELIZ!



Estive pensando certa vez na oração pelo outro. Não pelo filho, pais, parentes, amores... Mas pelo "outro".
Outro é um sujeito que pode ser aquele que maquina contra nós, que sequer sabe de nossa existência. Pode ser "qualquer um"...
Pode ser uma pessoa que passe no dia a dia por nós, que ao longe vislumbramos por algum motivo, qualquer que seja. 
O outro, essa personalidade distante, ou que se faz por algum motivo, distante mesmo que próxima, deve ser sim foco de uma oração especial e determinante.
Já pensou ou já por acaso ofereceu uma oração por felicidade incondicional à alguém? Sim, a esse alguém estranho, que maquina contra você, ou sequer se dá conta de sua existência?


Tente.

É mágico!

É sem dúvida, a mais límpida e fértil oração que poderá existir. 
É como se purificar de toda mancha, esvaziar-se de tudo o que não é necessário.
É como perder peso à cada silaba ou lágrima honesta que cai.
E basta as primeiras palavras ditas aos céus, para que as próximas fluam da alma como incenso ao nosso redor.
É evoluir de uma maneira a transcender nossa natureza.
É algo que jamais conseguiria descrever aqui.
Mas uma coisa tenha a certeza, se algum dia desses resolver de espírito e alma, orar pela felicidade incondicional de alguém ou, "do outro"... Seu pedido decerto será ouvido e cumprido. 
Não sei se por Deus, pelos anjos ou pelos que representam suas crenças particulares. Mas seu pedido será prontamente ouvido e realizado. E ao longe assistirá  "o outro" realizando sonhos, sendo feliz de fato e dizendo talvez:

- Não sei como explicar... Mas sou abençoado a cada dia sem sequer merecimento disso!

E em seu íntimo, silenciosamente saberá, foi você o causador da alegria e realização daquele que outrora decidira "despretenciosamente" abençoar. 














Escritora Tereza Reche

quinta-feira, 3 de março de 2016






- ENTREVISTA COM AUTORES IX -
POR TEREZA RECHE

Raphael Miguel

A nona entrevista da Coluna ENTREVISTA COM AUTORES, traz o escritor Raphael Miguel. Raphael nasceu em uma manhã chuvosa e fria da remota e charmosa cidade de Botucatu SP. Escritor por paixão, participou de diversas antologias de contos e poemas, além de escrever crônicas sobre cultura pop na Revista Varal do Brasil. Possui diversos projetos literários em andamento, incluindo o lançamento de seu primeiro livro solo intitulado O LIVRO DO DESTINO, pela Chiado Editora.

Entrevista


TEREZA RECHE
Como e quando o sr(a) iniciou sua carreira, e o que o levou a isso?

RAPHAEL MIGUEL
Sempre gostei muito de roteirizar, ditar diretrizes. Quando criança, não me contentava com brincadeiras banais. Para mim, a diversão tinha que ter uma história por trás. Lembro-me de desenvolver histórias em quarinhos com desenhos toscos e argumentos infantis. Não poucas foram as vezes que elaborei um histórico aos brinquedos, bonecos e carrinhos. Creio que foi desde esta experiência lúdica que me interessei por histórias. No colegial, era sempre elogiado nas aulas de redação e na adolescência, arrisquei poucas escritas que acabaram se perdendo com o tempo. Escrevi desde argumentos iniciais de romances e contos até cartas e letras de músicas. Entretanto, não foi desta experiência que o amor à escrita se tornou uma constante. Foi apenas depois de formado (em Direito), casado e pai. Em 2012 tive uma espécie de constatação. Já que sempre gostei de roteirizar e já que havia me arriscado em alguns escritos anteriormente, por que não arriscar deixar a coisa um pouco mais séria? Foi então que comecei a escrever minha primeira história completa. Nasceu assim A ANGÚSTIA DO CONSELHEIRO, primeiro volume de A SAGA DE ESPLENDOR (ainda não publicada), uma ambiciosa história de fantasia medieval. Ao ver que aquilo era bom, não parei mais de escrever. Passei a investir em antologias e a publicar algumas escritas em forma de contos e poemas, iniciando essas publicações na metade de 2015. Em 2016 estou publicando meu primeiro livro solo, O LIVRO DO DESTINO, pela Chiado Editora.

TEREZA RECHE
Cite suas obras e onde encontrá-las por gentileza.

RAPHAEL MIGUEL
Sou um escritor iniciante. Minhas primeiras publicações, ainda no ano de 2015, consistiam em aparições em antologias de contos e poemas. Ao todo, foram mais de 15 participações em antologias e seletas nos mais variados gêneros literários e ainda outras a serem lançadas. Além desta base em contos e poemas, apresento crônicas na Revista Varal do Brasil, com distribuição gratuita, através de minha coluna chamada O TOP DO POP onde escrevo sobre cultura pop em geral. Agora, em 2016, estou publicando meu primeiro livro solo chamado O LIVRO DO DESTINO pela Chiado Editora, uma gigante do ramo e estou dedicado e empenhado na divulgação. Aliado a tudo isso, ainda tenho outros projetos literários em desenvolvimento, como a revisão de A SAGA DE ESPLENDOR – A ANGÚSTIA DO CONSELHEIRO (ainda não publicado) e a conclusão de ÁCIDO & DOCE. Para divulgação de todo esse material, conto com um site próprio, além da página pessoal no facebook.

Abaixo, alguns pontos onde encontrar meus trabalhos:

Site pessoal com informações sobre meus projetos:


Página do autor no facebook:


Página oficial de O LIVRO DO DESTINO no facebook:


Página oficial de O LIVRO DO DESTINO no skoob:


Site da Chiado Editora e sinopse oficial:



TEREZA RECHE
Você acha que a figura do “leitor” continua em segundo plano nas reflexões literárias?



RAPHAEL MIGUEL
Não. Antigamente, o escritor era um ser quase inacessível ao leitor e havia grande dificuldade em manter um contato de duas vias entre um e outro. O cenário mudou e com a facilidade do leitor em interagir com o escritor, aquele se tornou uma espécie de termômetro no próprio processo criativo. Não é difícil encontrar casos em que a perspectiva de leitores mudou drasticamente o rumo da história de um escritor. O leitor lê, comenta, reflete, interage, indica, critica, chama atenção e toma partido. Impossível dizer que continua em segundo plano.

TEREZA RECHE
A Literatura há alguns anos, vem tomando novo corpo, a tecnologia propiciou isso. Publicações virtuais, facilidade em se auto publicar, dentre outras vias. Ao seu ver, como escritor da atualidade, esse cenário é de fato benéfico à Literatura, ou precisamos rever nossos conceitos?

RAPHAEL MIGUEL
Em um primeiro momento, me parece bastante benéfico. Quantos talentos não foram negligenciados e desperdiçados por não conseguirem os olhos de uma grande editora? Com o novo cenário da escrita, muitos que não teriam chance conseguem um lugar ao sol. A tecnologia e a facilidade citadas na pergunta podem proporcionar uma maior visibilidade da história e do escritor. Por outro lado, há uma verdadeira enxurrada de publicações e, às vezes, a qualidade deixa a desejar. Agora, caberá ao leitor filtrar aquilo que lê e ditar o veredicto se o que leu é, de fato, bom ou apenas uma escrita oportunista e bem divulgada. 





TEREZA RECHE
Qual o papel do escritor, em relação a disseminação e consequente transformação mental, intelectual e filosófica dos leitores como sociedade?

RAPHAEL MIGUEL
Não acredito que o escritor deva ser um formador de opinião, obrigatoriamente. Entretanto, quando o faz, deve ter noção da responsabilidade de tal ato. Aqueles que detêm a atenção dos holofotes devem ter consciência de que aquilo que dizem repercutirá. Se um escritor for expor sua opinião, deve fazer de forma responsável e consciente, pois muitos irão ouvir/ler suas palavras e as utilizarão como base para formar suas próprias opiniões. O verbo é SOMAR.

TEREZA RECHE
Qual a sua leitura de ficção brasileira hoje? É possível traçar vertentes e características?

RAPHAEL MIGUEL
Não vejo como um fenômeno nacional, mas mundial. A literatura brasileira reflete a estrangeira mais do que nunca. Inegável que existe uma crescente de obras com o tema distópico. A distopia ganha destaque a partir das ansiedades da sociedade com relação ao futuro. A humanidade caminha para o caos e as obras distópicas refletem essa preocupação ainda que disfarçada de entretenimento. Se fosse apontar o gênero literário que está em vogo hoje em dia, apontaria para a ficção distópica sem hesitar.

TEREZA RECHE
Escrita ou Vendas? Partindo do seu ponto de vista, qual desses substantivos femininos melhor se encaixaria no cenário literário atual? E por que?

RAPHAEL MIGUEL
Não podemos ser hipócritas ao ponto de acreditarmos que a escrita é mais importante que as vendas. No final das contas, apenas uma coisa importa no mercado: o potencial de venda de certo produto. Com os livros não é diferente. A partir do momento em que o livro transpassa o campo das ideias e se torna um produto, este será avaliado como um produto. Se o produto tem capacidade de venda, será melhor divulgado e, consequentemente, recebido. Por isso que é necessário haver cautela. Não é porque um livro vende bem que é uma boa escrita e, também, não é porque um livro é quase desconhecido que tem uma escrita ruim.

TEREZA RECHE
Como você avaliaria a literatura que se encontra no ranking dos melhores e mais vendidos?

RAPHAEL MIGUEL
A literatura que aponta no ranking dos mais vendidos é exatamente essa, a mais vendida. Quer dizer que o ranking sempre será ocupado por dois tipos que mais vendem: o gênero literário da moda e os escritores mais renomados. Isso reflete a qualidade da obra? Absolutamente. Alguns vendem apenas com o nome, outros vendem apenas pelo gênero, o que nem sempre é sinônimo de qualidade literária. O que deve haver é um filtro do grande público. 

TEREZA RECHE
Que problemática você destacaria na prática da difusão cultural no país? Como poderíamos resolver, senão amenizar tal situação?

RAPHAEL MIGUEL
Definitivamente, a falta do interesse do Poder Público em ver o povo mais culto. É deste desinteresse que todas as demais problemáticas se fazem presente, uma espécie de reação em cadeia maléfica e maldita. Se os governantes não se preocupam em propagar a cultura, por que os meios de comunicação com isso se não há incentivo? Para amenizar tal situação, deveríamos prestar mais atenção àqueles que elegemos como nossos representantes.



TEREZA RECHE
Como profissional literata, ao criar um novo livro, você exerce a escrita racional ou permite que a inspiração flua de maneira livre?

RAPHAEL MIGUEL
Racional-livre. (Risos); Em um primeiro momento, costumo traçar uma diretriz para o enredo não fugir ao controle. Nesse traço do roteiro original, exerço a escrita racional para não cair nas armadilhas pelo percurso. Já durante a escrita e desenvolvimento da trama, deixo com que a inspiração flua livremente e sem pudores. Não são raras as vezes em que me surpreendo com o ritmo no qual a história está correndo. Costumo dizer que escrever, às vezes, é como iniciar uma viagem sem GPS, pois você sabe aonde quer chegar, mas nunca tem certeza de como irá chegar até lá.

TEREZA RECHE
O que você, na pele de leitor, jamais leria?

RAPHAEL MIGUEL
Pode parecer demagogia, mas não há nada impossível de ser lido. Ao ler algo, devemos manter a mente aberta e isso não quer dizer que irá concordar com aquilo que lê. Ao afirmarmos que há algo que JAMAIS iríamos ler, estaríamos fechando milhares de janelas, oportunidades e até mesmo conceitos simplesmente por discordarmos de determinadas posições. Sou contra qualquer forma de intolerância irracional e a favor da discussão saudável e racional. Tenho meus gêneros preferidos e aqueles pelos quais não tenho apreço, mas dizer que JAMAIS leria algo... Parece-me exagero.

TEREZA RECHE
Escritor incondicionalmente o sendo por amor. Existe?

RAPHAEL MIGUEL
Certamente, ainda mais se levarmos em consideração que é difícil enriquecer com a literatura. Muitos escritores o fazem por hobby, não almejando qualquer retribuição financeira. Há quem encare a escrita como uma válvula de escape, uma distração. Tudo isso é uma forma de amor.

TEREZA RECHE
Por que na sua opinião, certos gêneros, por mais interessantes que pareçam ser, não vendem no mercado atual literário? Qual a estratégia, se é que existe, a ser posta em prática para que este obstáculo seja vencido?

RAPHAEL MIGUEL
Quando falamos em vendas, devemos ter bem claro que existem apenas dois tipos de produtos: os que vendem e os que não vendem. Alguns gêneros literários encontram um público imenso e fiel, outros gêneros sofrem com a falta de interesse do senso comum. O que deve ser mantido em foco é a abrangência da escrita. Talvez, aos gêneros menos populares resta apostar o marketing entre aqueles que já sinalizaram interesse. Apostar no público já existente, ainda que escasso, parece-me a solução mais adequada.



TEREZA RECHE
Cultura e Intelectualidade caminham de mãos dadas, entretanto não são homogêneas... Afinal, a sociedade está mais intelectualizada ou apenas mais “antenada”?

RAPHAEL MIGUEL
Mais antenada, definitivamente. Isso não é ruim, partindo do pressuposto de que todos (ainda que teoricamente) têm acesso à informação. O que a pessoa faz com todas as informações que recebe diariamente é o ponto central da questão. Enquanto alguns utilizam a informação para se tornarem mais ricos intelectualmente, o processo inverso se torna uma recorrente. Se por um lado, a sociedade se firma mais antenada, por outro, existe um grande risco de se ver alienada, um processo inverso, contraditório e perigoso.

TEREZA RECHE
Em que está trabalhando atualmente (livros)?

RAPHAEL MIGUEL
Paralelamente à divulgação de O LIVRO DO DESTINO, estou em processo de revisão final daquele que pode ser meu segundo livro solo, este chamado ÁCIDO & DOCE, com uma história frenética e intrigante sob o ponto de vista de dois protagonistas.

TEREZA RECHE
De suas obras, qual sente maior apreço e qual sua sinopse resumida?

RAPHAEL MIGUEL
A cada escrita, uma nova paixão. Se o escritor não estiver absolutamente dedicado àquilo que se propôs a escrever e se não estiver apaixonado pela história e pelos personagens, o projeto tende ao fracasso. Costumo dizer que o escritor deve ser seu maior fã e seu maior crítico. Dito isso, quase impossível eleger uma escrita pela qual se sente maior apreço. Se tenho que escolher alguma de minha galeria como favorita, devo eleger A SAGA DE ESPLENDOR – A ANGÚSTIA DO CONSELHEIRO (ainda não publicada). Representa muito para mim por dois grandes motivos: foi a partir desta escrita que comecei a arriscar no mundo literário e a primeira história que escrevi e ainda desenvolvo; é um enredo que remete muito à minha infância, pois muitos dos argumentos foram desenvolvidos em minhas brincadeiras infantis.




Sinopse resumida 
A ANGÚSTIA DO CONSELHEIRO 

Um velho moribundo conhecido como Vito, o Vidente, agoniza seus instantes finais trancafiado em seus aposentos particulares em uma das torres da Sede da Ordem dos Segredos do Reino de Agat. Amargurado, o homem lamenta sua condição senil enquanto elabora uma série de profecias sobre um futuro nebuloso que aguarda todo o Reino. Giden, uma espécie de discípulo e ajudante de Vito, testemunha as últimas profecias do velho e recebe a importante incumbência de levar os fatos ao conhecimento de Mendel, Conselheiro Mor do Rei, evitando que as desgraças profetizadas se concretizem. 

TEREZA RECHE
Quais seus planos para 2016 em relação a sua vida literária?

RAPHAEL MIGUEL
Creio que um passo deva ser dado por vez. Sinceramente, gostaria de despejar todos meus projetos de uma vez, mas tenho a clareza de que não posso proceder desta forma. Com a publicação recente de meu primeiro livro solo, devo trabalhar com isso até poder dar o próximo passo. A divulgação de um autor iniciante não é fácil, e, se não houver uma correta exposição, seu trabalho pode passar despercebido, prejudicando até mesmo vindouras publicações. Dito isso e com base no contexto de meus atuais projetos, o melhor a fazer em 2016 é construir uma base sólida para avançar nos anos subsequentes. Pretendo trabalhar intensivamente com O LIVRO DO DESTINO, continuar a escrever mais histórias e prosseguir avançando. Tenho a convicção que este ano será um ano de solidificação e construção.



TEREZA RECHE 
Existe obrigatoriamente que se seguir critérios para a criação literária? Justifique-se. 

RAPHAEL MIGUEL
O único critério é manter a coerência. Nada arrasa mais com o crédito de um trabalho do que a falta de coerência entre os argumentos. De outro modo, não creio que haja obrigatoriedade de se seguir outros critérios. O autor deve ser responsável e manter um bom nível de auto-crítica ao ponto de ser livre para escrever da forma que melhor lhe convir. A própria história ditará seu ritmo e pedirá pelos critérios a serem utilizados no argumento. Contanto que mantenha coerência, o escritor deve ser livre para criar.  

TEREZA RECHE
Deixe sua mensagem aos leitores e colegas de profissão.

RAPHAEL MIGUEL
Devo agradecer a todos que, de uma forma ou de outra, me ajudaram a chegar até aqui. O caminho pela frente não é fácil, mas não existe impossível quando firmamos em nossos sonhos e objetivos. O incentivo que recebo daqueles que já leram algum de meus trabalhos é o combustível para seguir na jornada, produzindo cada vez mais. Aos que ainda não conhecem, convido-os a conhecer minha escrita e pretendo manter uma relação sempre próxima ao público. Quanto aos meus colegas escritores, deixo minha mensagem simplificada com apenas uma palavra-chave: PERSEVERANÇA.


Caro Raphael Miguel, foi um prazer ter sua participação no Blog Por Tereza Reche.







                                                                      Escritora Tereza Reche

quarta-feira, 2 de março de 2016



- ANÁLISE SOBRE ESTILOS DE APEGO - Segundo John Bowlby 


                                   Quem é John Bowlby?

Este artigo abordará os tipos de Apego interpessoal segundo o pscicólogo, psiquiatra e psicanalista britânico, John Bowlby. John  nasceu em 1907, na Inglaterra e estudou Psicologia, Ciências Naturais e, depois, Medicina. Foi analisado por Joan Riviere, tornando-se membro titular da “British Psychoanalytical Society” (BPS). Melanie Klein supervisionou a sua primeira análise a crianças. Em 1940, publicou trabalhos sobre a criança, a sua mãe e o seu ambiente. Três noções básicas fazem parte de sua obra: o apego, a perda e a separação. Em 1948, dirigiu uma pesquisa sobre crianças abandonadas ou privadas de lar. Em 1951, publicou o seu relatório Maternal Care and Mental Health.

Depois de 1950, foi dando à sua obra um conteúdo cada vez mais biológico.

Abaixo o link para download do livro em PDF "A Teoria do Apego no Contexto da Produção Científica Contemporânea " da autora Adriana de Albuquerque Gomes Lígia Ebner Melquiori.  O livro possui 396páginas e se encontra aberto na internet. 




http://www.4shared.com/office/SGhMaykLce/APEGO_PDF.html


SOBRE A TEORIA DO APEGO


VÍDEOS EXPLICATIVOS SOBRE AS FORMAS PSICOLÓGICAS DO APEGO 
-Por Manoel Augusto Bissaco-

Quem é Manoel Augusto?



Terapia Holistica é um processo interativo, caracterizado por uma relação única entre Terapeuta e cliente, levando este ao autoconhecimento e a mudanças em várias áreas, sendo as mais comuns: comportamento, elaboração da realidade e/ou preocupações com a mesma, incremento na capacidade de ser bem-sucedido nas situações da vida (aumento máximo das oportunidades e minimização das condições adversas), além de conhecimento e habilidade para tomada de decisão. ​
Respeitando sempre o tempo, histórico de vida e a individualidade de cada cliente, e acreditamos que todo ser humano possui muitos recursos dentro de si para encontrar resoluções para seus problemas. O direcionamento é parte integrante do trabalho de todo verdadeiro Terapeuta, independentemente de quais outros métodos adote.
Manoel Augusto é hipnoterapeuta especializados em doenças psicossomáticas, cura e resolução de stress pós traumático e em técnicas motivacionais e vivenciais
Nós partimos da leitura que procura abordar as causas do problema e não tratar apenas conseqüências, o foco do trabalho é no cliente e não só no sintoma. A Psicoterapia Holística busca descobrir os fatores emocionais, mentais, energéticos e espirituais que criaram a condição para que uma doença ou conflito tenha se instalado.
Sendo assim a Psicoterapia Holística trata cada caso como único, para exemplificar pensemos em duas pessoas que possuem um mesmo problema de saúde, podemos dizer, sem medo de errar que na grande maioria das vezes, embora o problema seja semelhante os caminhos pelos quais o problema se instalou são muito diferentes.
A constituição de cada um dos envolvidos é única, temperamento, dinâmicas, histórico de vida e caráter individuais que necessitam de uma abordagem também individual, aliás o termo indivíduo significa exatamente algo não dividido, total.
Somos determinados pelo impulso de fazer você “SER”, não importa o que você já fez e sim o que você “É”.

Formação

• Hipsone Ericksoniana pelo ACT – Acredited Certified Training (Teaching Division – The Institute for Trauma Release Therapy and Global Institute for Trauma Resolution reconhecido pelo The American Board of Hipnotherapy);


• Técnico em Hipnose Clínica;


• Master Practitioner em programação neuro-linguística;


• Practitioner em EFT (Acupuntura Emocional sem Agulhas);


• Praticante de S.E (Somatic Experiencing);


• Auto regulação e estabilização através do trabalho somático nas atividades infantis;


• Healing Early Attachment Wounds (Curas de Traumas de Apego Precoce);


• Generative Trance (Transe Generativo);


• Neuro biological trauma resolution level I e II (resolução neurobiológica de trauma nivel I e II);
•Abordagens Hipnóticas Ericksoniana para traumas;
• Constelações familiares.


• Hipnose Ericksoniana, nível avançado em regressão e progressão de idade;


• Coerência cardíaca;


• Neuroplasticidade no tratamento de TEPT (transtorno de stress pós traumático);


• Focalização orientada ao trauma complexo;


• Psicologia pré e peri natal nivel I e II;


• Matrix Reimprint.

Manoel A. Bissaco foi treinado pessoalmente por:

• Stephen Gilligan (discípulo direto de Milton Erickson);
• Beth Erickson (filha de Milton Erickson);
• Stephen Paul Adler (autoridade mundial em Hipnose Ericksoniana, cura e/ou resolução de trauma e estresse pós traumático);
• Diane Polle Heller (criadora de Healing Early Attachment Wounds, Cura de Trauma de Apego Precoce).

VÍDEOS












TEORIA DO APEGO

No final de 1949, um jovem e imaginativo psiquiatra, de orientação analítica e recentemente apontado para ser o chefe de Seção da Saúde Mental da organização Mundial de Saúde, interveio. Requisitado para contribuir com as Nações Unidas com um estudo sobre as necessidades de crianças sem lar, Ronald Hargreaves decidiu escolher um consultor, por um certo período, para fazer um relatório sobre os aspectos da saúde mental concernentes a esse problema e sabendo de meu interesse nesse campo, me convidou para essa tarefa (Bowlby, 1990, p.34).


Assim começa a história de John Bowlby, um psiquiatra que, entre a década de cinqüenta e sessenta, investigou e elaborou a teoria que procura explicar como ocorre – e quais as implicações para a vida adulta - dos fortes vínculos afetivos entre o bebê humano e o provedor de segurança e conforto.
Bowlby recolheu relatos e fez observações da interação mãe – bebê. Os dados que recolheu indicavam para uma direção diferente daquela que a psicanálise e a teoria cognitiva da época apontavam:


Naquele tempo, era largamente aceito que a razão pela qual a criança desenvolve um forte laço com sua mãe é o fato de que esta a alimenta. Dois tipos de impulsos são postulados, primário e secundário. O alimento é tido como primário; a relação pessoal, referida como dependência, como secundário. Essa teoria não me parecia se adaptar aos fatos (Bowlby, 1990, p.37)


Em sua monografia para a Organização Mundial de Saúde – OMS, “Cuidados Maternos e Saúde Mental”, de 1951, Bowlby revê as provas relativas aos efeitos adversos da privação materna para o bebê e discute os meios de prevenir tais efeitos. Neste trabalho, fiz uma revisão sobre a evidência, então disponível, considerada de pouca importância, relativa às influências adversas, no desenvolvimento da personalidade, do cuidado materno inadequado, durante a primeira infância; chamei a atenção para o desconforto intenso das crianças pequenas, que se acham separadas daqueles que conhecem e amam e fiz recomendações quanto à melhor forma de evitar, ou pelo menos diminuir os efeitos maléficos a curto e a longo prazo (Bowlby, 1989, p.34).


Porém, ainda se fazia necessária à construção de bases teóricas e conceituais. O que estava faltando, como vários revisores apontaram, era alguma explicação de como as experiências incluídas sob o amplo título de privação materna poderiam ter efeitos no desenvolvimento da personalidade dos tipos mencionados. A razão para essa omissão era simples: os dados não estavam inseridos em nenhuma teoria até então corrente...(Bowlby, 1989, p.36).


O contato com a etologia, ciência que estava em seus primórdios pelas mãos de Konrad Lorenz, Harry F. Harlow e Robert Hinde, possibilitaram que Bowlby estruturasse a base teórica de seus trabalhos. Considerando que as publicações de Konrad Lorenz (1934) sobre “imprinting”1 poderiam ter algumas implicações relevantes para o estudo de desenvolvimento dos vínculos em seres humanos e partindo da base conceitual e metodológica da etologia, John Bowlby propôs, em 1958, que, assim como em outras espécies animais, os bebês humanos seriam programados para emitir certos comportamentos que eliciariam atenção e cuidados e manteriam a proximidade do cuidador. Bowlby estava descartando a idéia do impulso primário, que associa a alimentação à razão pela qual a criança desenvolve um forte laço com sua mãe e substituindo-a pelo sentimento de segurança, atribuindo a ele a noção de função biológica de proteção.

Um suporte de força para esse passo veio logo depois com a descoberta de Harlow de que, em outra espécie primata – macaco Rhesus – os jovens mostram preferência marcante por uma mãe-boneca macia, apesar de ela não os alimentar, ao invés de uma mãe-boneca dura (de arame) que os alimenta (Harlow e Zimmerman, 1959 apud Bowlby, 1989 p.38) A partir do conjunto da obra de Bowlby se pode estabelecer as definições de comportamento de apego e suas características. Assim, comportamento de apego é definido como:

Qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa alcançar e manter proximidade com algum outro indivíduo, considerado mais apto para lidar com o mundo (Bowlby, 1989, p.38).


Os comportamentos de apego se referem a um conjunto de condutas inatas exibidas pelo bebê, que promove a manutenção ou o estabelecimento da proximidade com sua principal figura provedora de cuidados, a mãe, na maioria das vezes. O repertório comportamental do comportamento de apego inclui chorar, fazer contato visual, agarrarse, aconchegar-se e sorrir. (Bowlby, 1990) . O comportamento de apego será eliciado quando o bebê estiver assustado, cansado, com fome ou sob estresse, levando-o a emitir sinais que podem desencadear a aproximação e a motivação do cuidador.

O comportamento de apego traz segurança e o conforto e possibilita o desenvolvimento - a partir da principal figura de apego - do comportamento de exploração. Quando uma pessoa está apegada ela tem um sentimento especial de segurança e conforto na presença do outro e pode usar o outro como uma “base segura” a partir da qual explora o resto do mundo. Dentro de sua teoria, ainda, Bowlby enfatiza sete características (Bowlby, 1997)


1. Especificidade – O comportamento de apego é dirigido para um ou alguns indivíduos específicos, geralmente em ordem clara de preferência.

2. Duração – O apego persiste, geralmente, por grande parte do ciclo vital.

3. Envolvimento emocional – Muitas das emoções mais intensas surgem durante a formação, manutenção, rompimento e renovação de relações de apego.

4. Ontogenia – O comportamento de apego desenvolve-se durante os primeiros nove meses de idade de vida dos bebês humanos. Quanto mais experiências de interação social um bebê tiver com uma pessoa, maior são as probabilidades de que ele se apegue a essa pessoa. Por essa razão, torna-se a principal figura de apego de um bebê aquela pessoa que lhe dispensar a maior parte dos cuidados maternos. O comportamento de apego mantém-se ativado até o final do terceiro ano de vida; no desenvolvimento saudável, tornase, daí por diante, cada vez menos ativado.

5. Aprendizagem – Recompensas e punições desempenham apenas um papel secundário. De fato, o apego pode desenvolver-se apesar de repetidas punições por uma figura de apego.

6. Organização – O comportamento de apego é organizado segundo linhas bastante simples. Mediado por sistemas comportamentais cada vez mais complexos, os quais são organizados ciberneticamente. Esses sistemas são ativados por certas condições e terminados por outras. Entre as condições ativadoras estão o estranhamento, a fome, o cansaço e qualquer coisa assustadora. As condições terminais incluem a visão ou som da figura materna e a interação com ela. Quando o comportamento de apego é fortemente despertado, o término poderá requerer o contato físico ou o agarramento à figura materna e (ou) ser acariciado por ela.

7. Função biológica – O comportamento de apego ocorre nos jovens de quase todas as espécies de mamíferos e, em certas espécies, persiste durante toda a vida adulta. A manutenção da proximidade com um adulto preferido por um animal imaturo é a regra geral, o que sugere que tal comportamento possui valor de sobrevivência. Assim, a função do comportamento de apego é a proteção, principalmente contra predadores. Cabe ainda fazer a distinção entre comportamento de apego e apego.


Ao falar de uma criança que esteja apegada ou que tenha um apego a alguém, quero dizer que esta pessoa está fortemente disposta a procurar a proximidade e contato com esse alguém e a fazê-lo, principalmente, em certas condições específicas. A disposição de comportar-se dessa maneira é um atributo da pessoa apegada....O comportamento de apego, em contraste, se refere a qualquer das formas de comportamento, nas quais a pessoa se engaja, de tempos em tempos, para obter ou manter uma proximidade desejada. (Bowlby, 1989, p.40).


O TESTE DE SITUAÇÃO ESTRANHA

A partir da teoria de Bowlby, Ainsworth e Wittig (1969) elaboraram um procedimento laboratorial para qualificar o vínculo formado entre o bebê e sua principal figura de cuidado, denominado de “Teste de Situação Estranha”, o qual permitiu observar as manifestações comportamentais do apego e examinar o equilíbrio entre o apego e o comportamento exploratório, sob condições de alto e baixo estresse em crianças. Nestas condições, o comportamento é ativado como conseqüência da separação da figura cuidadora. Este trabalho trouxe importantes contribuições para a teoria do apego, ao demonstrar que o apego resultante da interação bebê - mãe, varia na dependência do tipo de cuidado materno e das características inerentes ao bebê.
As respostas dos bebês observadas neste teste possibilitaram a classificação do apego em quatro padrões:
Seguro - o bebê sinaliza a falta da mãe na separação, saúda ativamente a mãe na reunião, e então volta a brincar;
Inseguro - evitante - o bebê exibe pouco ou nenhuma aflição quando separada da mãe e evita ativamente e ignora a mãe na reunião;
Inseguro - resistente - o bebê sofre muito, tem muita aflição ou angustia pela separação e busca o contato na reunião, mas não pode ser acalmado pela mãe e pode exibir forte resistência;
Inseguro - desorganizado – apresenta comportamento misto, ora como evitante, ora como resistente.


 Comportamento parental
A contraparte do comportamento de apego é o comportamento parental.
A teoria do apego propõe o sistema do cuidador como um sistema normativo e provedor de segurança. Cuidar é definido como um ampla ordem de comportamentos complementares ao comportamento de apego e inclui um larga gama de responsabilidades, tais como prover ajuda ou auxílio, conforto e confiança, provendo uma base segura, e encorajando autonomia do bebê (Bowlby, 1990).


O cuidador deve ser capaz de responder de forma flexível a uma ampla margem de necessidades que surgirem, deve ter conhecimento adequado de como prover cuidado apropriado e estar disponível quando necessário. Precisa ter recursos emocionais e materiais: habilidade de empatizar e se colocar no lugar do indivíduo em sofrimento. Finalmente, precisa ser motivado a oferecer cuidado. (Feeney e Collins, 2001) O papel do cuidador freqüentemente envolve uma boa porção de responsabilidade, assim como uma quantidade substancial de recursos cognitivos, emocionais, e materiais. Deve, portanto, estar motivado a aceitar a responsabilidade (que freqüentemente envolve algum grau de sacrifício) e dispor de tempo e esforço necessários para prover apoio efetivo. Se o cuidador não estiver suficientemente motivado, pode não desempenhar seu papel adequadamente (Feeney e Collins, 2001).


Não há dúvida que o conjunto formado pelo comportamento materno–filial tenha sido alvo de pressão seletiva nos organismos em geral, constituindo-se desse modo em um sistema comportamental instintivo (Bussab, 1998, p.27). Para garantir o cuidado parental, o processo evolutivo muniu o filhote com características físicas e comportamentais que eliciam a vinculação e a motivação por cuidar. No caso do ser humano, o contato visual e tátil com o bebê favorecem a formação do vínculo afetivo e desencadeia o comportamento de cuidar, tão importante para a sobrevivência do bebê.


Na evolução hominídea, em contraste com os demais primatas, ocorreu uma intensificação dos cuidados parentais, com aumento dos já intensos cuidados maternos típicos de primatas e também com introdução de cuidados paternos, raros entre os grandes antropóides... O bebê humano, mesmo a termo, nasce prematuro para o padrão dos primatas... Essa prematuridade tem sido explicada como adaptação ao dilema obstétrico... O andar ereto obrigava um certo fechamento da abertura pélvica, enquanto o crescimento cerebral exigia um aumento da abertura pélvica. O nascimento prematuro parece ter sido uma solução para este problema obstétrico. Por sua vez, o nascimento prematuro aumentou ainda mais a dependência do recém-nascido. Pode-se constatar que durante a evolução humana, cuidados parentais foram intensificados, assim como a vinculação efetiva recíproca, como resultado das pressões seletivas geradas pelo envolvimento crescente de um modo de vida cultural (Bussab, 1998, p.20-21).


De acordo com Bee (1984), pode-se acrescentar que: na presença de um bebê pequeno, a maioria dos adultos automaticamente apresentará um padrão inconfundível de comportamentos interativos, incluindo sorrir, levantar as sobrancelhas e abrir muito os olhos (p.315). Lorenz (1993) propõe que os traços juvenis desencadeiam o que ele denomina de mecanismos liberadores inatos (MLI) de afeto e cuidado em humanos adultos. Assim os comportamentos associados a provisão de cuidados não se restringiriam aos bebês humanos, mas também a todos aqueles que fossem identificados como necessitando de proteção. Humanos exibem emoções e padrões comportamentais de cuidado parental diante de várias configurações de estímulo-chave....o fato de sentirmos ternura mesmo por animais adultos, ...também parece ser efeito de um MLI (Lorenz, 1993, p.220).


Assim, característica humana de se vincular, ser sensível e responder a estímulos advindos do bebê pode ser aplicada na compreensão do vínculo com o cão. “Quando vemos uma criatura viva com característica de bebê, somos acometidos por um surto automático de ternura desarmante....respondemos a um conjunto de traços específicos que atuam como liberadores”(Gould, 1989, p. 207-210). O processo de domesticação e a neotenia acentuaram nos cães características físicas e comportamentais similares as do bebê humano, ou seja, ao longo do processo de evolução, o cão estendeu o processo de formação de vínculo afetivo (apego) e incluiu os seres humanos, evoluindo para apresentar características físicas e comportamentais que eliciassem o comportamento parental (provedor de cuidados) no ser humano, bem como sua adoção em um período determinado que favorece sua vinculação ao mesmo.


Bibliografias usadas para este artigo: 

Bowlby J. As origens do apego. In: Uma base segura: aplicações clinicas da teoria do apego. Porto Alegre: Artes Médicas; 1989. p. 33-47.

Bowlby J. Apego. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes; 1990.

Bowlby J. Formação e rompimento de vínculos afetivos. In: Formação e rompimento de laços afetivos. São Paulo: Martins Fontes; 1997. p. 167-208.

Bussab V. O Comportamento Materno. In: Costa, M. P. C., V.U., editor. Comportamento Materno em Mamíferos.Bases teóricas e aplicações aos ruminantes domésticos. Jaboticabal: SBEt; 1998.

Gould S. O polegar do panda: reflexões sobre história natural. São Paulo: Martins Fontes; 1989.

Feeney B. C. e Collins N. L. Predictors of Caregiving in Adult Intimate Relationships: An Attachment Theoretical Perspective. Journal of Personality and Social Psychology 2001; 80(6): 972-994.

Harlow H. F. e Zimmerman R. R. Affectional responses in the infant monkey. Science 1959; 130: 421.

Lorenz K. Os fundamentos da etologia. São Paulo: UNESP; 1993.


LEANDRO KARNAL






- ENTREVISTA DO SITE SETOR VIP - 
   LEANDRO KARNAL 

Leandro Karnal é historiador e filósofo, um dos maiores e mais admirados em minha opinião. Segue abaixo uma entrevista desta grande personalidade ao site Setor Vip. Eloquente. Elegante. Exímio. Um dos intelectuais mais respeitados do Brasil, Leandro Karnalacaba de lançar o livro “Pecar e Perdoar – Deus e o Homem na História”. Quem o acompanha nas edições do Café Filosófico encontra no livro a mesma exuberância de sua oratória. Ouve-se sua voz. Ele faz arte ao falar em público e conduz na trajetória do raciocínio o homem comum que se questiona. Nascido em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Karnal atua como professor na UNICAMP, especialista em História da América, assunto sobre o qual discorreu no livro “Estados Unidos: a Formação da Nação”. O historiador ainda assina os títulos “Conversas com um Jovem Professor” e “História na Sala de Aula”. Neste novo livro, Karnal apresenta aforismos interessantíssimos sobre vícios e virtudes, assumindo o papel delicioso – maneira a la Tolstoi – de provocar os dois grandes personagens da história do mundo: Deus e o diabo. Seus argumentos colocam os dois no tribunal e deixam para o leitor o veredito. Do lado do diabo: “A história dos corações humanos mostrou que Lúcifer era o verdadeiro visionário. Lúcifer é o “pai da mentira”, mas, convenhamos meu devoto leitor, isso pode ser propaganda da concorrência.”Ou como advogado de Deus: “A maior injustiça que Deus sofre no mundo contemporâneo é esta: ficar congelado no passado e ser acusado de não responder mais à angústia do adulto.”Voltando para o homem, o intelectual provoca: “O ponto de virtude onde me coloco é a tranquilidade do fariseu que cumpriu o jejum correto e segue a norma do descanso do sábado, pagou o dízimo das mínimas coisas e só se esqueceu de um detalhe: amar. O furor de quem julga e legisla é o medo de ser igual.” Com o Setor VIP, Leandro Karnal dialoga sobre algumas questões efervescentes de nossa humanidade. Imperdível!


ENTREVISTA

Setor VIP
É mais difícil conviver com o transgressor ou com o hipócrita?

LEANDRO KARNAL
Sempre depende de quão transgressor ou hipócrita somos. Prefiro o ataque direto ao veneno destilado, o inimigo aberto ao velado, mas isto é subjetivo. O transgressor é uma espécie de herói romântico. O hipócrita é uma personagem política. Mas o hipócrita só existe porque parte de mim deseja o elogio e odeia a verdade crítica. O transgressor é meu oposto, mas o hipócrita é meu filho.

Setor VIP 
Somos muito melhor fingindo ser politicamente corretos do que buscando ser verdadeiramente politicamente corretos?

LEANDRO KARNAL
Ser politicamente correto é desejar não machucar, não agredir e levar em conta a diversidade. Hoje é obrigatório ser politicamente correto. Então, ficamos mais estratégicos do que convencidos. Julgar e afastar e ser politicamente correto por obrigação é dizer que tenho, além de preconceito, medo.

Setor VIP
Uma mulher pode ser sinceramente devota a Deus e viver o sexo em toda a sua plenitude e profundidade?

LEANDRO KARNAL
Obviamente que sim, mas cada época leu a sexualidade feminina de um jeito. O principal problema é que as normas sobre sexo e virtude das mulheres são feitas por homens, legisladores e juízes, e padres, solteiros e homens. Logo, o problema principal não é saber do sexo ou dos seus limites e glórias, mas saber das mulheres.

Setor VIP
Porque a beleza é tão temida?

LEANDRO KARNAL
A beleza é, para Rilke, o grau do terrível que desdenha nos destruir. Assim, é o caráter sedutor, libertador e aterrador da beleza que nos destrói.


Setor VIP
Qual é a luta mais inglória das feministas?

LEANDRO KARNAL
Há muitos tipos de feministas e em muitas fases. De Flora Tristán a Simone de Beauvoir e as atuais. O feminismo é filho do seu tempo e sua consciência é a consciência possível. Já foi queimar sutiã, já foi imitar aos homens. O desafio feminista sempre é reinventar-se e corresponder à verdade de cada momento.

Setor VIP
Por que o diabo tem mais “autonomia e força” no Cristianismo do que no Judaísmo? Evidenciá-lo em algum momento da história foi uma decisão para manter o poder estabelecido através do medo?

LEANDRO KARNAL
Medo é um elemento importante em todo sistema de controle: escola, religião, Estado… O monoteísmo absoluto do Judaísmo transforma o demônio em auxiliar de Deus, como no livro de Jó. Os judeus acreditavam em espíritos imundos que tomavam as pessoas, mas não deram ao demônio a autonomia de um reino. O Catolicismo incorpora mais crenças rurais e pagãs. A partir do final da Idade Média e inicio da Moderna, o demônio cresce muito no Catolicismo, especialmente na Contrarreforma. É uma estratégia de controle e uma herança do maniqueísmo. O demônio é citado muito mais do catecismo de Trento do que Deus. Mas é geral o sentimento: os códigos falam mais do crime do que das pessoas virtuosas. Como diminuiu hoje a culpa na sociedade ocidental, o demônio perde força, porque Deus sempre me entende e é sempre meu amigo e sempre me perdoa. Deus foi customizado e uma figura punitiva como o demônio vive declínio no Catolicismo, mas ainda é bastante explorado nas religiões pentecostais e neopentecostais. O demônio sempre depende de vontade de controle social e de capacidade de se sentir culpado.


Setor VIP
Devemos ao diabo algum tipo de evolução?

LEANDRO KARNAL
O demônio é uma criação como Deus. Ele mostra como pensamos os sistemas sociais. Para o historiador, não existe evolução, existe apenas transformação. Não estamos melhores ou piores do que no Egito antigo ou na Idade Média. Lúcifer, por exemplo, é um líder rebelde no “Paraíso Perdido” de Milton e é um romântico simpático na obra de Blake. Lúcifer é um espelho do humano e da sua rebeldia permanente.

Setor VIP
O homem moderno não gosta da ideia de se parecer com Deus?

LEANDRO KARNAL
Na verdade, o trecho é uma crítica a um motivo corrente para se abandonar Deus: o deus infantil. Vale o mesmo para o casamento. Os casais separam, por vezes, por não saberem adaptar sua relação a novas situações, reinventar-se. Se Deus era o Papai do Céu, ele estava ao lado de Papai Noel. Este Deus deve morrer para que um deus mais adulto cresça. Este é um mau motivo para matar Deus.


Setor VIP
Madonna chocou nos anos 1980 quando mostrou os seios, o corpo nu no polêmico livro SEX (1993), entre outras cenas sempre ligadas ao sexo, mas ela era jovem. Hoje, aos 56 anos, ela fez uma foto de topless (ensaio para a revista Interview) e o que as pessoas mais comentaram é que era um absurdo porque ela não tem mais idade para isso. Aceitamos mais a luxúria quando ela está aliada à juventude? Envelhecer se tornou um problema moral?

LEANDRO KARNAL
Luxúria está associada a prazer. O prazer, hoje, pós século XIX, é permitido mais facilmente aos jovens. Faz parte da nossa ambiguidade. Somos uma sociedade onde os jovens cresceram muito e ser velho deixou de ser uma referência de sabedoria e passou a ser defeito. Senhoras de 70 anos usam saias curtas e biquíni, algo que não ocorria antes. Em parte, isto é herança do pensamento religioso: sexo é permitido ou tolerado se houver chance de reprodução. Por isto, sexualidade pós menopausa ou homoerótica são temas cheios de tabu, pois evidenciam o prazer pelo prazer, não pela reprodução. Também devemos lembrar que é muito custoso reprimir-se. Assim, quem não se reprime nos irrita, pois faz o que desejaríamos. Por fim, tem a questão da misoginia: permitimos ao homem mais velho coisas que não são permitidas às mulheres. É nossa tradição preconceituosa mais sólida. Uma mulher rica, talentosa, senhora de si, com namorados 30 anos mais jovens é um desafio enorme ao status quo falocêntrico de nosso mundo. Madonna usa homens para seu prazer e isto é atributo só permitido aos homens, que sempre usaram mulheres. O grau da reação a isto só traz à tona o grau da insatisfação sexual do leitor médio. Sem-vergonha é aquela ou aquela que faz tudo que minha vergonha não permite fazer.

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